Porque a greve no setor público não deve ser um direito

Vivemos o auge da social-democracia. “O auge?”, você pergunta. Eu digo que sim. O auge. O auge da insolvência, da imoralidade. Mas o auge, sim, da social-democracia, já que nada além disso podia se esperar de um sistema que muito promete a uns às expensas de outros. Até que os “outros” sejam insuficientes, e as medidas geniais aparecem: endividamento, impressão descontrolada de papel moeda, etc. Soluções mágicas, no governo mais próximo de você.

Impressão de dinheiro – O real símbolo da social democracia

Nesse mesmo cenário, houve uma evolução dos direitos sedimentados pelos liberais, e os direitos individuais passaram a sociais, difusos. A chamada, por Bobbio, Era dos Direitos. Nada contra, afinal de contas, é interessante analisar essa expansão dos direitos por um ponto de vista que busque uma coesão social. O direito à informação, à preservação do meio ambiente (sem radicalismos eco-terroristas, é claro), essenciais a um ambiente democrático.

Mas nesse mesmo cenário, direitos esdrúxulos aparecem. Um tal de Cristovam Buarque, conhecido ingênuo esquerdista, propôs até mesmo positivar na constituição o direito de ser feliz. Imagino a onda de depressivos movendo uma ação civil pública contra o Estado, exigindo sua indenização por não ter um direito “de classe” (quem sabe até com direito a sindicato) tutelado. A obrigação por parte do Estado de garantir que a felicidade jamais seja retirada de uma classe de infelizes. É claro que aqui uso um exemplo absurdo (Até porque imagino que na verdade se tenha confundido com algo já existente: O direito de buscar a felicidade existente na Declaração da Independência das 13 Colônias, e que se desdobra em inúmeras consequências que não cabem ser tratadas aqui). Em meio a essa manada de direitos (no Brasil pouco importa a eficiência e a aplicabilidade dos direitos, então compensamos com o grande número) existem alguns que, por estarem já enraizados em nosso meio, já não parecem tão surreais.

Greve dos professores

Um deles é o direito à greve, mais especificamente no setor público (já que no privado nada pode impedir que trabalhadores se organizem; e talvez sejam demitidos por isso, mas não vem ao caso). O setor público é sustentado com o dinheiro do contribuinte. Em geral é um sistema deficitário, já que no Brasil não existem muitas empresas governamentais voltadas ao lucro (o que em outros países é comum). Tendo isso em vista, o único retorno que os impostos devem trazer, no caso, é o serviço bem executado (ou pelo menos executado, já que eficiência não é o lema de nosso sistema público). A conclusão é simples: o sistema público não deve, em hipótese alguma, parar.

No Brasil, o sonho de muitos, assim que entram na universidade, é prestar concurso para integrar o corpo de servidores públicos. Não para servir o povo, como sugere o nome, mas em busca da estabilidade que o setor, em tese, oferece (em tese pois os salários dependem do cargo, e em alguns o salário é baixo). Oferecendo um serviço bom, não há nada de errado em pessoas buscarem, ao servir o povo, um bom salário e, também, nessa empreitada, satisfazer seus interesses pessoais. Não se espera que a pessoa vá ao sistema público por puro altruísmo. Existem casos, mas são raros.

O caso mais recente de insatisfação, e que tem ocupado espaço nos noticiários, é o dos professores das universidades federais. A greve já se estende por dois meses, com duas propostas de aumento do governo federal. Aumentos respeitáveis, diga-se de passagem. Não concordo com a extensa greve, e para isso destacarei alguns pontos:


I – O Salário é definido em Edital

Podemos começar com o fato que o salário inicial é dado, e ninguém é obrigado a prestar o concurso. A carreira acadêmica deve ser incentivada? É claro. Mas o salário em edital é baseado nos recursos destinados ao setor em questão. Em outras palavras, é o que o governo, em tese, pode oferecer.

II – A universidade é um ambiente de pesquisa

Muitos reclamaram das propostas pois elas beneficiam mais os doutores do que os mestres. Em um ambiente que objetiva o desenvolvimento da ciência, não poderia ser diferente. Assim estimula-se que os professores busquem se aprimorar cientificamente, realizando doutorados e contribuindo para o aumento no número de patentes.

III – A universidade é mantida com o dinheiro dos contribuintes

Como consequência, ela deve estar formando para o mercado de trabalho, para a carreira acadêmica e contribuindo para com o futuro do país. Independente do que aconteça. É isso que se espera de onerosas instituições: que deem o retorno à sociedade em forma de tecnologia e ciência.

Muitos podem pensar que sou a favor das condições precárias que acometem as universidades federais. Ledo engano. O governo tem sua parcela de culpa: o valor investido nas universidades poderia oferecer uma estrutura muito melhor do que a existente. Parcerias com o setor privado deveriam ser buscadas para um maior desenvolvimento do setor (mas isso apavora os lunáticos do DCE e professores adeptos ao comunismo dinossauro). Não julgo correto que os salários dos professores se mantenham congelados por tempo indeterminado, também: nesses casos, a justiça deveria se incumbir de indenizar, além de que o governo deveria ser mais claro no que tange os reajustes.

Mas agora, volto ao que abordei ainda no primeiro parágrafo desse texto: vivemos um sistema que está à beira da bancarrota. Uma crise se alastra e, cada vez mais, arrisca atravessar o atlântico para provar que, diferente do que disse Lula, não é só uma “marolinha”. Já sentimos seus impactos na inflação, tão temida pelos professores com relação aos aumentos (que, sinceramente, foram respeitáveis). Enquanto os governos do mundo precisam se adaptar fiscalmente, aumentar suas responsabilidades no que tange os gastos, os professores do ensino público desejam um aumento surreal. Quem sabe possamos imprimir milagrosamente o dinheiro que os professores e os sindicatos desejam. Então, num passe de mágica, entraremos de cabeça na crise, que demanda o corte de gastos. Mas sempre podemos nadar contra a correnteza. Os tempos de Sarney não nos ensinaram nada.

6 comentários em “Porque a greve no setor público não deve ser um direito”

  1. “… quem sabe possamos imprimir milagrosamente o dinheiro que os professores e os sindicatos desejam …”

    ou quem sabe possamos aumentar o número de vagas para deputados federais, e migrarmos os professores para exercerem essa função mais nobre que não necessita de formação acadêmica nenhuma e recebe R$26.000,00 além de direito a R$8.000,00 de auxílio saúde, além das dezenas de assessores.

    ou ainda quem sabe possamos mudar a direção do valérioduto e utilizar o dinheiro do mensalão para melhoria da estrutura e salário dos professores

    ou ainda quem sabe, poderíamos utilizar os 6 bilhões de reais liberados pelo Banco do Brasil para que sejam construídos estádios para Copa/Olimpíada e para o time que nosso querido ex-presidente torce

    ou ainda quem sabe possamos utilizar o dinheiro do cachoeira na educação pública e não no financiamento irregular da campanha de vários políticos do atual governo

    em resumo, existem muitas coisas mais importante para serem criticadas e corrigidas antes de apontarmos o revólver para reivindicação da melhoria da educação, em um país onde a maioria trata políticos como astros e estendem tapetes vermelhos aos mesmos e por favor, quando mencionar o dinheiro do contribuinte novamente lembre de todos os gastos absurdos feitos pela política executada nesse país, não queira culpar os servidores públicos federais que menos ganham nesse país!

    1. Não estou glorificando o salário dos nossos astros burocratas. Mas bater nessa tecla é chover no molhado. Todos sabemos que política não devia ser profissão. Os políticos também sabem.
      O que as pessoas devem saber, também, é que serviço público é serviço. Os professores universitários recebem bons salários, mesmo comparados à média mundial. Os salários não são o problema de nossa educação. O problema está no descaso para com a estrutura. Você verá: os salários vão aumentar e a educação continuará na mesma situação.
      Quem deve ter seus salários aumentados são os professores da base: do ensino fundamental. Esses sim recebem salário de miséria. Os professores universitários, num geral, não tem do que reclamar.

    2. Além de que as propostas do governo foram respeitáveis. Não foram aceitas porque os sindicatos precisam fazer mais barulho e precisam de um pouco mais de cargos políticos e dinheiro.
      E não é porque tem muito dinheiro mal gasto que o caso das greves não deve ser apontado, em um momento em que todos vêem os professores como vítimas.

      1. Até mesmo por que, que culpa os estudantes tem?Por que logo eles, estudantes que são também os contribuintes para o usufruto de tal serviço, tem de ficar sem o serviço?Eles também não são as vítimas?Caso a greve acabe, é possível até mesmo dos professores receberem referente aos dias de greve, mas os alunos que se ralem pra compensar o período…Com relação aos valores que os políticos recebem, é inútil reclamar, se nao houver uma drástica medida….

  2. Só corrigindo um detalhe, o problema do salário não ocorre porque os professores querem um salário maior que o proposto no edital, e sim porque pedem ao governo que REAJUSTE os salários para que estes acompanhem a inflação. Além disso, para quem só acompanha e sabe o que é divulgado na mídia, dentro das exigências está uma melhor infraestrutura e condições de educação que beneficiem os alunos.

    uma aluna alienada que só sabe falar e, na verdade, não luta de forma real por uma sociedade mais justa.

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