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Texto de Carlos Alberto Montaner publicado originalmente na revista Ilustración Liberal. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPara ler o artigo original, em espanhol, clique aqui.

Em 1556, o poderoso imperador Carlos V decidiu abdicar e retirar-se para viver no mosteiro de Yuste em Extremadura, Espanha. Cansado das guerras constantes, deprimido pela morte de sua esposa, Isabel de Portugal, e sua mãe, Joana a Louca, e atormentado pela dor que leva a gota, distúrbio metabólico, tornar-se uma dor terrível , geralmente nas articulações, de preferência nos dedos dos pés, condição esta chamada podraga (gota, em espanhol).

Carlos V quer simplesmente escapar da morte e da dor.

Mas uma vez instalados em sua nova e austera residência, razoavelmente confortável para os padrões da época, Carlos V da Alemanha, e Primeiro de Espanha, como eles preferem chamá-lo, guiado pela ignorância, toma duas decisões fatais. Bebedor de cerveja, faz semear cevada enquanto um par de mestres cervejeiros que tinha trazido da Alemanha istalam um alambique para destilar. Os médicos que o acompanham intuem, com certa razão, que alguma relação tem a gota com os rins, e sabem que a cerveja estimula a vontade de urinar, assim que aprovam com entusiasmo a afeição do ex-imperador por esta forma refrescante de álcool. Ninguém sabia então que a bebida, rica em purinas, aumenta os níveis de ácido úrico dos portadores da gota, de modo que o pobre Carlos V aumentou o problema com todos os jarro de cerveja ingeridos.

O Imperador Carlos V.

A segunda decisão errada tinha a ver com um critério estético. Carlos V construiu uma piscina para olhar pela janela e, talvez, dar um mergulho nos dias de calor intenso. Pensava que estes banhos podiam aliviar a dor da gota. Talvez, mas a água parada atrai mosquitos. Um mosquito transmitiu-lhe a febre amarela e o pobre homem morreu em meio aos tremores e dores de todos os tipos que causam malária.

Qual é o propósito de começar a considerar um desenvolvimento com esta peça curiosa da história? Simples: para mostrar que a ignorância, escoltada por percepções distorcidas em geral leva a decisões erradas e fatais, mesmo pelas pessoas mais poderosas.

Primeira mentira: a riqueza das nações poderosas foi o resultado da pilhagem do mais fraco

Não é verdade. Espanha, Portugal e Turquia foram três dos maiores impérios da terra e não começaram realmente a prosperar até que se livraram de suas conquistas. Estabelecer e defender um império normalmente custa muito mais do que eles costumam produzir em riqueza.

Lembro que no início dos anos noventa do século passado, após a demolição do Muro de Berlim, um slogan entrou em voga em Moscou: “A Rússia deve ser libertada do peso da União Soviética.” Os russos finalmente perceberam que o custo para manter girando em torno de seu país uma série de satélites, o que incluia colônias políticas caras e distantes no Terceiro Mundo, como Cuba ou Etiópia, em vão sangrando o Tesouro Nacional.

Países Baixos e a Suécia nunca foram mais ricos do que quando dissolveram seus impérios. A pequena Suíça nunca teve um império é uma das nações mais prósperas do planeta. A riqueza da França não se derivava do espólio de suas colônias, senão do comércio, como sucedeu posteriormente com os Estados Unidos.

É muito mais o que a Inglaterra plantou em suas colônias do que colheu delas, como pode ser visto nos EUA, Canadá, Austrália, Irlanda ou Nova Zelândia. A força econômica que vemos em um país como a Índia, antiga colônia britânica, deve-se à marca da civilização na Inglaterra e não às antigas tradições hindus, completamente longe da mentalidade competitiva do capitalismo moderno.

É verdade que as nações imperiais obrigavam suas colônias a consumir produtos gerados pela metrópole, dentro da mentalidade mercantilista da época, mas Adam Smith, a fins do século XVIII, advertiu que esta era uma medida mutuamente empobrecedora. Servia para enriquecer a certos cortesãos próximos à Coroa, mas não favorecia ao conjunto da sociedade.

Este foi um dos cavalos de batalha do pensamento e das revoluções liberais: abrir-se ao comércio internacional e à concorrência.

Segunda mentira: as nações poderosas criam formas de comércio e produção que condenam à miséria ou à mediocridade aos povos menos desenvolvidos

Não é verdade. Ninguém impediu o Taiwan de converter-se em um país de Primeiro Mundo especializado em bens de alta tecnologia. Nenhuma nação gananciosa tratou de evitar que a Coréia do Sul inundasse o mundo com carros e eletrodomésticos. Tampouco tentam que o Brasil não produza e venda bons aviões, ainda que seja um Estado notavelmente protecionista, ou que o México exporte cimento, móveis ou petróleo aos Estados Unidos.

A Teoria da Dependência, que vez ou outra mostra a cabeça, ainda que disfarçada de nacionalismo patriótico, é um total disparate.

Por que lutavam as colônias européias por liberdade? Para poder comerciar sem um intermediário explorador. O livre comércio era mais benéfico para estas sociedades do que a Economia dualista do sistema colonial.

Se amanhã um laboratório argentino desenvolve uma vacina contra o câncer ou uma empresa chilena de informática cria um buscador mais eficiente que o Google, imporão seus produtos no mercado internacional se contam com o talento para comercializá-lo. Pelo contrário: vez ou outra os órgãos financeiros internacionais resgatam os países pobres quando estão em apuros. Num mundo interdependente, a nenhuma nação interessa a ruína do vizinho.

Terceira mentira: o Estado deve ditar as linhas mestras do desenvolvimento porque o mercado aberto conduz à desordem

Não é verdade. O Estado não deve freiar ou limitar a criatividade da sociedade impondo-lhe uma planificação ordenada. Em grande medida, o desenvolvimento é produto dos avanços tecnológicos, e estes espasmos criativos se dão de maneira espontânea e imprevista. No século XVIII, a uns técnicos desconhecidos lhes ocurreu colocar trilhos nas minas para extrair os minerais em vagões de metal. Quando se aperfeçoou a máquina à vapor, outros engenhosos mineiros substituíram as mulas por locomotoras. Sem avisá-los, haviam inventado o trem.

A fins do século XIX, o senhor Edison inventou a lâmpada incandescente e criou as redes e a empresa para distribuir a eletricidade. Ao telefone, à aviação, ao rádio, à televisão, ocorreu o mesmo. Nada foi planejado pelo Estado. Mesmo a internet, que surgiu como um projeto do Pentágono para comunicar os postos de comando em caso de guerra, só se explica seu fenomenal desenvolvimento porque a iniciativa privada lhe tirou do berço e a faz crescer.

Esta não é a função do Estado. Não pode fazê-lo. Não sabe fazê-lo. Por isto o mundo socialista, dirigido pelo Estado, foi praticamente estéril no terreno da criação.

Da faísca genial surge a invenção; depois da invenção aparece a empresa; depois dela, a concorrência e a atividade frenética que transformam o panorama econômico. Nada disto pode ser decidido por uns funcionários sobrecarregados que só podemn planificar sobre a realidade existente –como se vivessemos em uma dimensão estática–, mas que não podem ver o futuro… que já está cozinhando nos laboratórios ou na imaginação de certas pessoas impetuosas e criativas.

Ante esta impossibilidade de prever o futuro, o que deve fazer o Estado é criar e tutelar as condições para que a sociedade civil possa desenvolver-se e criar riqueza com a menor quantidade possível de limitações.

Não é falso que cada invenção também destrói empresas e capital acumulado, como advertiu Schumpeter, mas o dano de tratar de freiar a imaginação e a espontaneidade é muito maior.

Planificar o futuro coletivo e decidir arbitrariamente o que devemos produzir ou consumir é uma maneira lamentável de empobrecer-nos.

Quarta mentira: a qualidade de um Estado se mede pelo nível de gasto social e a solidariedade que ele demonstra

Não é verdade. Um Estado ideal é aquele que não requer gasto social porque todas as pessoas encontram a maneira de ganhar a vida decentemente por seu próprio esforço.

Sabemos que isto é impossível, dado que sempre há uma porcentagem de pessoas incapacitadas por diversas causas; mas quanto menos gasto social se necessita, maior será a qualidade de um Estado e mais clara será a demonstração de que esta sociedade criou um tecido empresarial vasto e competitivo, no qual todas as pessoas encontram seu espaço.

Quinta mentira: uma das funções principais do Estado é redistribuir a riqueza criada para evitar ou limitar as desigualdades

Não é verdade. Ou não deveria ser. A desigualdade é uma das consequências não buscadas das sociedades economicamente livres.

Onde se pode criar riquezas, surgem desigualdades.

É verdade que os gerentes e executivos das grandes empresas (especialmente nas multinacionais) recebem salários e benefícios que às vezes somam até cinquenta ou cem vezes o salário médio dos trabalhadores destas companhias, mas também é verdade que neste tipo de empresa os salários e os benefícios (seguros médicos, fundos de pensão, bolsas de estudo, férias pagas, etc.) são mais altos que a média. Se os acionistas de uma empresa creem que a remuneração de seus executivos deve ser milionária, é uma decisão que só compete a eles, da mesma maneira que são os donos dos times de futebol ou de beisebol os que devem decidir quanto pagam a seus atletas.

Por outro lado, não se deve esquecer que uma das características do mundo moderno desenvolvido é que os modos de vida das classes médias não diferem muito dos das classes endinheiradas.

A distância real entre a posse de um Rolex e um Mercedes Benz, por uma parte, e um Citizen e um Chevrolet, pela outra, é, fundamentalmente, uma questão de status. Uma pessoa muito rica pode comprar um quadro do Picasso num leilão e colocá-lo no seu avião privado. Um empregado médio, por sua vez, terá de conformar-se com uma cópia do pintor espanhol e voar como passageiro num avião comercial, mas estas diferenças no comportamento social são totalmente adjetivas.

Não cabe ao Estado decidir quais posses ou condutas legais são admissíveis ou censuráveis. Cada ser humano é diferente e tem suas próprias urgências psicológicas e suas próprias necessidades materiais.

Nas nações desenvolvidas o punhado de ricos e as imensas classes médias comerão os mesmos alimentos, se tratarão nas mesmas clínicas, tomarão medicamentos similares, se divertirão de igual maneira e terão à mão as mesmas informações. Não há nenhum estudo que indique que os ricos vivam mais, ou sejam mais saudáveis e felizes que os membros dos setores sociais médios. É verdade que as rendas são desiguais, mas este dado não é tão importante, enquanto que dedicar-se a corrigir estes desníveis em um tom acusador o que provoca e fomenta é uma danosa luta de classes. Por outra parte, a evidência indica que os grandes capitalistas, enquanto acumulam suas fortunas, criam riquezas que beneficiam a milhões de pessoas.

Os exemplos de Bill Gates e Warren Buffet são claríssimos. Estão entre as pessoas mais ricas do planeta, mas o capital que acumularam (e voluntariamente dedicaram a ajudar os necessitados) não empobreceu ninguém. Pelo contrário, remuneram muito bem a seus trabalhadores e enriqueceram milhões de pessoas em meio à venda de ações e, no caso de Buffet, desencalhando empresas.

A riqueza cresce por meio do trabalho e do comércio. Não é uma soma estática e limitada.

Sexta mentira: os países com menos desigualdades são aqueles em que existe uma maior pressão fiscal

Não é  verdade. Podem coexistir ambos os fenômenos, mas não é a a pressão fiscal a causa de uma menor desigualdade, e sim a qualidade do tecido produtivo e do volume de riqueza que a sociedade pode criar.

É nas nações que tem um aparelho produtivo variado e com grande valor agregado, nas nações onde as empresas competem entre si e disputam a mão-de-obra qualificada, onda há uma melhor distribuição de rendas.

Num país como o Brasil, por exemplo, onde há desníveis sociais enormes, isto não sucede com os empregados da fábrica de aviões Embraer ou com os trabalhadores da Petrobrás, porque o valor que agregam à produção determina que seus salários sejam muito mais altos que os que recebem os colhedores de café ou engraxates. Para poder pagar vinte e cinco dólares por hora a um empregado, o bem que este produz – ou o serviço que presta – tem que valê-los num mercado competitivo.

Sétima mentira: o Estado deve determinar os salários e os preços para evitar as injustiças

Não é verdade. Os funcionários públicos não têm nenhuma maneira racional para determinar o que é um salário justo. A definição de salários justos como “a quantidade necessária para uma vida decente” é a expressão lírica de um nobre desejo, mais do que o produto de uma realidade econômica. A única maneira de ter altos salários para responder à economia real passa por dispor de um tecido empresarial denso e competitivo que tenha pleno emprego, para que os empresários tenham que brigar pelos melhores trabalhadores e compensá-los devidamente para mantê-los.

Os empregados não ganharão mais pela bondade dos funcionários ou pela fúria dos sindicatos, mas pela concorrência e por agregar valor à produção. Se o Estado, encorajado pelos sindicatos, tornar os salários e os benefícios excessivos, acabará provocando o desemprego, a fuga de capitais, desinvestimento e destruição de empresas. Nem tem sentido esperar por uma atitude benevolente e generosa dos empresários. A tendência da maioria dos empregadores é pagar tão pouco quanto possível para os seus trabalhadores. Não se esqueça que a escravidão existiu até muito recentemente (eu sabia de pessoas cubanas, na minha infância, que nasceram escravas), e foram poucos os empresários avessos ao que chamava-se pelo eufemismo de “a instituição peculiar”.

Oitava mentira: a educação vai nos tirar da miséria

Não é verdade. A educação é apenas um componente do desenvolvimento e da prosperidade. É muito importante, mas é de pouca utilidade a menos que se tenha uma sociedade hospitaleira com a capacidade de criar riqueza, dotada com as instituições adequadas para isso, tanto no campo legal como no campo financeiro.

Os países europeus do bloco socialista foram, provavelmente, mais bem educados do que os EUA ou o Canadá, se esse conhecimento fosse julgado por meio de seus bacharéis ou graduados. Cuba, cujo governo persegue com gana aos empresários, tem quase um milhão de graduados universitários, mas muitos deles preferem dirigir um táxi ou vender pizzas porque eles recebem uma remuneração superior a essas atividades do que em suas profissões.

A coisa maravilhosa da história da Microsoft, Apple e Facebook não é que quatro rapazes em uma garagem podem construir um império econômico em um curto espaço de tempo, mas que a sociedade em que vivem é tão porosa, tão  flexível, e com uma rede de instituições jurídicas e financeiras tão notável, que torna possível o surgimento destes milagres empresariais.

Mais impressionante do que o talento desses jovens artistas é o capital intangível, com que contavam para realizar seus projetos.

Nona mentira: o livre comércio nos tirará da miséria

Não é verdade. Ao livre comércio acontece o mesmo que com a educação. É muito importante, pois sem ele o desenvolvimento é impossível, ou pelo menos muito difícil, mas tem que haver com que negociar.

A chave está na oferta.

Se continuarmos a vender café, açúcar, leite, cacau e banana, vamos nos beneficiar somente quando tais produtos subirem de preço no mercado por um aumento inesperado na demanda. É desanimador saber que só a Nestlé, após processar e embalar convenientemente estes mesmos produtos , vende mais que todos os países centro-americanos sem um acordo de livre comércio que abranja as suas atividades.

Sociedades pouco produtivas não podem utilizar o comércio como as que são cheias de criatividade. Sempre se beneficiarão, mas não da mesma maneira e com igual intensidade.

Hoje, os centro-americanos e dominicanos estão frustrados porque o Acordo de Livre Comércio com os Estados Unidos não alterou significativamente suas vidas, mas não costumam fazer a pergunta fundamental: o que eles têm para oferecer aos 300 milhões de consumidores norte-americanos? Onde estão as empresas inovadoras adequadas para servir a esse mercado, como fazem os chineses e já começam a fazer os indianos, ou como fazem  pequenos países transbordando criatividade empresarial, incluindo Israel, Dinamarca, Suíça ou a Holanda?

Décima mentira: a ajuda internacional nos tirará da miséria

Não é verdade. Nenhum país pode nos resgatar. Eles podem aliviar-nos em uma situação econômica ruim, e freqüentemente o fazem, geralmente sem muito entusiasmo, mas ninguém pode nos salvar dos nossos próprios demônios.

Após o terremoto que destruiu metade no Haiti soube-se neste pequeno desastre caribenho operam mais ONGs que em qualquer outro lugar do planeta. E tudo é quase inútil.

Não é verdade. Nenhum país pode nos resgatar. Eles podem aliviar-nos em uma situação econômica ruim, e freqüentemente o fazem, geralmente sem muito entusiasmo, mas ninguém pode nos salvar dos nossos próprios demônios. Após o terremoto que destruiu metade no Haiti soube-se neste pequeno desastre caribenho operam mais ONGs pequenos do Caribe operar mais em qualquer outro lugar do planeta. E tudo o que é quase inútil. No entanto, outras zonas desesperadas do mundo, como a Coréia do Sul nos anos cinquenta ou Cingapura nos anos sessenta fizeram as coisas de forma diferente e foram colocadas no pelotão avançado no mundo.

Conclusão

Definitivamente, o caminho do desenvolvimento e da prosperidade começa por banir a infinita quantidade de mentiras e erros que circulam em nossa sociedade e nos precipitam em direção ao desastre.

Termino por onde comecei. Conta-se que enquanto Carlos V agonizava de febre amarela, que produz muita sede, pedia e lhe davam cerveja para aliviá-lo. Isto incrementava a dor da gota. Contam que morreu gritando.

Não há nada mais perigoso que a ignorância.