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Continuando o estudo da obra de Juan Bautista Alberdi, La Omnipotencia del Estado es la Negación de la Libertad Individual (A Onipotência do Estado é a Negação da Liberdade Individual). Alberdi denuncia o patriotismo (ou nacionalismo) sulamericano como uma romantização de valores de sociedades latinas há muito mortas, um modelo de pensamento simplesmente incompatível com a liberdade. 

O que era, em efeito, a Pátria e o patriotismo, no sistema social e político das antigas sociedades da Grécia e de Roma? Insistamos em explicá-lo.

A palavra Pátria, entre os antigos, segundo De Coulanges, significava a terra dos pais, terra Pátria. A pátria de cada homem, era a parte do solo que sua religião doméstica ou nacional havia santificado, a terra em que extavam depositadas as ossadas de seus antecessores e que estavam ocupadas por suas almas. Terra sagrada da Pátria, diziam os gregos. Este solo era literalmente sagrado para o homem deste tempo, porque estava habitado por seus deuses.

Estado, Pátria, Cidade, estas palavras não eram uma mera abstração como nos tempos modernos; representavam realmente todo um conjunto de divindades locais, com um culto de todos os dias e crenças poderosas sobre a alma. Só assim se explica o patriotismo entre os antigos; sentimento enérgico que era para eles a virtude suprema em que todas as virtudes vinham a refundir-se.

Uma Pátria semelhante não era para o homem um mero domicílio. A pátria estava ligada ao homem por vínculo sagrado. Tinha que amá-la como se ama a uma religião, obedecê-la como se obedece a Deus, dar-se a ela por inteiro, girar em torno dela, consagrar-lhe seu ser. O grego e o romano não morriam por desprendimento em obséquio de um homem, ou por honra; mas à sua Pátria deviam a sua vida. Porque se a Pátria é atacada, é a sua religião que é atacada, diziam eles.

Combatiam verdadeiramente por seus altares, por seus lares pro aris et focis (por Deus e pela Pátria); porque se o inimigo tomasse a cidade, seus altares eram derrubados, suas chamas simbólicas extintas, suas tumbas profanadas, seus deuses destruídos, seu culto despedaçado. O amor à Pátria era a piedade mesma dos antigos. Para eles, Deus não estava em todas as partes. Os deuses de cada homem eram aqueles que habitavam sua casa, sua cidade, sua província.

O desterrado deixando a sua Pátria para trás, deixava também seus deuses. Mas como a religião era a fonte de que emanavam seus direitos civis, o desterrado perdia tudo isto, perdendo a religião de seu país pelo fato de seu desterro, não tinha mais direito de propriedade. Seus bens eram todos confiscados em proveito dos deuses e do Estado. Não tendo culto não tinha família, deixava de ser marido e pai.

O desterro da Pátria não parecia um suplício mais tolerável que a morte. Os jurisconsultos romanos lhe chamavam pena capital.

Samuel Johnson, grande autor inglês e conservador fervoroso. Segundo ele, “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas.”

De onde nasciam estas noções sobre Pátria e patriotismo?

Era que a cidade havia sido fundada em uma religião e constituída como uma igreja. Daí a força, a onipotência e absoluto império que a Pátria exercia sobre seus membros. Concebe-se que numa sociedade estabelecida sobre tais princípios a liberdade individual não pudesse existir. Não havia nada no homem que fosse independente. Nem sua vida privada escapava a esta onipotência do Estado.

Os antigos não conheciam, portanto, nem a liberdade da vida privada, nem a liberdade de ensino, nem a liberdade religiosa. A pessoa humana valia muito pouco diante desta autoridade santa e quase divina que se chamava Pátria ou Estado.

Não era estranho, segundo estes precedentes históricos, que, tergiversados em seu sentido, induzissem aos revolucionários franceses do século passado, imitadores inconscientes das antigas sociedades da Grécia e de Roma, imitassem com exaltação estes modelos mortos.

A funesta máxima revolucionária de que a saúde do Estado é a lei suprema da sociedade, foi formulada pela antiguidade grega e romana.

Pensava-se então que o direito, a justiça, a moral, tudo devia ceder ante o interesse da Pátria.
Não houve, portanto, um erro maior do que crer que nas cidades antigas o homem desfrutara da liberdade. Nem ideia sequer tinha dela. Não acreditavam que pudesse existir direito algum em oposição à cidade e seus deuses.

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