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I. Família
Ludwig Heinrich Edler von Mises (mais conhecido como Ludwig von Mises, ou simplesmente Mises) nasceu em 29 de Setembro de 1881, em Lemberg, antigo Império Austro-Húngaro (atualmente a cidade se chama Lviv, localizada na Ucrânia). Seu pai era engenheiro, e tanto ele como sua mãe eram judeus. Tinha um irmão mais novo (Richard von Mises), que no futuro viria a se tornar um grande matemático e engenheiro mecânico e outro irmão (Karl von Mises) que  faleceu ainda criança.

II. Formação Acadêmica e Profissional
Em 1900, Mises estudou na Universidade de Viena, sendo influenciado pelos trabalhos do economista Carl Menger. Seu pai veio a falecer em 1903 e em 1906 Mises já tinha concluído seu doutorado. De 1904 a 1914, Mises assistiu aulas do economista Eugen von Böhm-Bawerk, o qual tornou-se seu amigo, assim como Menger e o sociólogo Max Weber.

De 1913 a 1934 Mises deu aula na Universidade de Viena como um privatdozent (professor habilitado para dar aula, porém não remunerado pelo governo). Também serviu como secretário na Câmara do Comércio de Viena, de 1909 a 1934. Dessa forma, ele se tornou um dos mais próximos conselheiros econômicos de Engelbert Dollfuss – um chanceler austro-fascista, e depois para Otto von Habsburg, um político democrata cristão e pretendente ao trono da Áustria (que veio a ser abolido em 1918). Alguns amigos e alunos de Mises na Europa incluem Wilhelm Röpke e Alfred Müller-Armack (influentes conselheios do chanceler alemão Ludwig Erhard), Jacques Rueff (conselheiro monetário de Charles de Gaulle), Lionel Robbins (da Faculdade de Economia de Londres), e um presidente da Itália, Luigi Einaudi. Mises também serviu na cavalaria austro-húngara no front oriental (russo) durante a Primeira Guerra Mundial.

III. Conselheiro do governo Seipel
Algo que exemplifica suas ações práticas foi quando em 1922 Ignaz Seipel tornou-se Chanceler da Áustria. Seipel era um padre católico romano honesto e escrupuloso, porém com pouco conhecimento econômico, podendo ser considerado como um político atípico. Mises, então conselheiro do governo, junto de Wilhelm Rosenberg (amigo de Mises e especialista em questões financeiras) convenceram Seipel de que, para o bem do povo, a impressão de cédulas monetárias deveria ser interrompida.

Mises prontamente percebeu que Seipel esperava que uma eventual interrupção da inflação trouxesse imediata prosperidade. Mises, honestamente, não queria iludir Seipel. “Interromper a inflação irá trazer uma melhora econômica com o tempo”, Mises lhe disse. “Porém, não será algo imediato…. O primeiro efeito dessa interrupção será uma “crise de estabilização”, que irá provocar sérias, embora curtas, privações econômicas”. Depois, prosseguiu dizendo que “as pessoas passaram a esperar que os preços subam constantemente. Elas, na medida do possível, já se ajustaram à inflação. A interrupção do fluxo de cédulas será um choque. Aquelas que haviam antecipado mais inflação verão seus planos frustrados. Assim, o efeito imediato da interrupção da inflação não será benéfico para o senhor e nem para o seu partido político. Ouso dizer que o senhor terá sérias dificuldades”.

Seipel o interrompeu. “Mas você diz que isso é necessário – que essa é a coisa moral e ética a se fazer. Sendo assim, então não importa. O partido não deve fazer apenas aquilo que é popular no curto prazo; ele também deve fazer o que é melhor para o país”. Então, a inflação monetária foi finalmente interrompida na Áustria no segundo semestre de 1922, um ano antes da catastrófica hiperinflação alemã chegar ao fim. E, apesar de toda a oposição dos rivais socialistas, monsenhor Seipel e seu partido venceram a eleição seguinte, em outubro de 1923.

III. Alunos ilustres: Hayek e Rothbard
O economista e teórico político Friedrich A. Hayek conheceu Mises quando trabalhava como seu subordinado em um escritório do governo lidando com o débito da Áustria no pós-Pimeira Guerra Mundial. Hayek o descreveu como “um executivo tremendamente eficiente, o tipo de homem que, como dito por John Stuart Mill, faz o dia de trabalho em apenas duas horas, sempre tem uma mesa de trabalho limpa e tempo para falar sobre qualquer coisa. Eu vim a conhecê-lo como um dos mais educados e informados homens que já tive conhecimento…”. De acordo com o aluno de Mises Murray Rothbard, o desenvolvimento do trabalho teórico sobre o ciclo de negócios de Mises por Hayek daria a Hayek seu Nobel de 1974 em ciências econômicas (dividido com o economista socialista sueco Gunnar Myrdal).

IV. A fuga do totalitarismo
Em 1934 Mises, temendo a ascenção do totalitarismo de Hitler, saiu da Áustria e foi para Genebra, Suíça, onde lecionou no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais até 1940. Quando Hitler invadiu a Áustria em março de 1938, Margit, (então sua noiva, que estava em Viena) conseguiu enviar um telegrama para Mises, que naquela data já havia voltado para Genebra: “Não precisa vir”. Ela e sua filha, Gitta (o filho de Margit já estava fora do país, estudando na Inglaterra), finalmente conseguiram obter a papelada necessária, bem como as passagens de trem, deixaram a Áustria e viajaram para a Suíça, onde Margit e Ludwig discretamente se casaram. O apartamento de Mises em Viena foi saqueado, com seus livros e outras propriedades sendo destruídos pelos nacional-socialistas austríacos logo após março de 1938, quando Hitler anexou toda a Áustria.

O professor e a Sra. Mises passaram seus primeiros anos juntos na Suíça. Entretanto, quando os alemães conquistaram a França, decidiram que era hora de deixar a Suíça e ir para os Estados Unidos. Fugiram de ônibus (junto com outros refugiados) através do sul da França, em uma viagem angustiante. O motorista frequentemente era obrigado a alterar a trajetória para evitar soldados alemães. Devolvidos à pequena cidade francesa de Cerbère, na fronteira com a Espanha, porque seus vistos estavam vencidos, Mises conseguiu, pegando o trem das quatro da manhã para Toulouse, adquirir novos vistos. No dia seguinte, o ônibus cruzou com seus passageiros a fronteira da Espanha. Os refugiados tomaram então um trem para Barcelona, um avião para Lisboa, e dali finalmente, após uma espera de 13 dias, um navio para os EUA.

V. Iluminando a América
Então, ele se tornou professor na Universidade de Nova Iorque. Manteve essa posição até sua aposentadoria em 1969. Como ele não era pago pela universidade, empresários como Lawrence Fertig o financiaram, assim como seu trabalho. Apesar de fugir da Europa, Mises é creditado por ter um papel importante na restauração econômica europeia depois da Segunda Guerra Mundial graças às suas relações profissionais com Ludwig Erhard, Charles de Gaulle e Luigi Einaudi.

Na América, o trabalho de Mises influenciou primeiro economistas como Benjamin Anderson, Leonard Read e Henry Hazlitt, mas também escritores como Max Eastman, Sylvester J. Petro e Ayn Rand tornaram-se seus amigos e admiradores. Seus alunos americanos incluíram Israel Kirzner, Hans Sennholz, Ralph Raico, Leonard Liggio, George Reisman e Murray Rothbard. Mises depois recebeu um doutorado honorário da faculdade Grove City.

Mises contribuiu com artigos para a American Opinion, o jornal da John Birch Society, e foi membro do seu Conselho Editorial. Apesar de sua crescente fama, Mises listou-se no diretório de telefones de Nova Iorque e recebia alunos em sua casa. Ele se aposentou das aulas com 87 anos, então o professor com mais idade na América.

VI. Morte
Mises morreu com 92 anos no hospital St. Vincent’s em Nova Iorque. Seu corpo foi enterrado no cemitério Ferncliff, em Hartsdale, Nova Iorque. Com sua morte, toda sua biblioteca (e sua escrivaninha pessoal) foi doada para a faculdade Hillsdale onde está disponível para uso de alunos e visitantes.

VII. Cavaleiro da Liberdade
Mises escreveu e lecionou incansavelmente, sempre divulgando o liberalismo clássico, sendo um dos líderes da Escola Austríaca de economia. Em seu livro Ação Humana, Mises revelou o fundamento conceitual da economia, que chamou de praxeologia, a ciência da ação humana. Muitos de seus trabalhos tratavam de dois temas econômicos relacionados, sendo eles economia monetária e inflação, além de diferenças entre economias planificadas e livre mercado.

VIII. Refutando o socialismo: valor subjetivo e ação humana compondo uma economia orgânica
Mises defendia que as pessoas demandam dinheiro por causa da sua utilidade como meio para aquisição de outros bens, não por algum valor intrínseco desse, e que qualquer expansão de oferta de crédito causa ciclos econômicos desastrosos. Mises sugeriu que o socialismo falha no aspecto econômico por causa do problema do cálculo econômico — a impossibilidade de um governo socialista conseguir fazer os cálculos econômicos necessários para organizar uma economia complexa, por causa de ruídos ou completa interrupção do funcionamento do sistema de precificação.

Mises argumentou que, sem um economia de mercado, não haveria um sistema de preços funcional, o qual considerava essencial para alcançar uma alocação racional dos bens de capital para os seus usos mais produtivos. O socialismo falha porque a demanda não pode ser conhecida sem preços estabelecidos pelo mercado. A crítica de Mises da via socialista para o desenvolvimento econômico é conhecida:

O único fato sobre a Rússia sob o regime soviético com que todas as pessoas concordam é: que a qualidade de vida do povo russo é muito menor do que a do povo no país que é universalmente considerado como o paradigma do capitalismo, os Estados Unidos da América. Se fôssemos considerar o regime soviético um experimento científico, poderíamos dizer que a experiência demonstrou claramente a superioridade do capitalismo e a inferioridade do socialismo.

Em Intervencionismo, uma Análise Econômica (1940), Ludwig von Mises escreveu:

A terminologia usual da linguagem política é estúpida. O que é esquerda e o que é direita? Por que Hitler é de “direita” e Stalin, seu amigo e contemporâneo, de “esquerda”? Quem é “reacionário” e quem é “progressista”? Reação contra políticas pouco inteligentes não deve ser condenada. E progresso em direção ao caos não deve ser elogiado. Nada deve ser aceito apenas por ser novo, radical e estar na moda. “Ortodoxia” não é um mal se a doutrina em que o ortodoxo se baseia é válida. Quem é antitrabalhista, aqueles que querem rebaixar o trabalho ao nível da Rússia, ou aqueles que querem para o trabalho o padrão de vida capitalista dos Estados Unidos? Quem é “nacionalista”, aqueles que querem colocar seu país sob os calcanhares dos nazistas ou os que querem preservar sua independência?