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Quando falamos de ideologias, mesmo que não especifiquemos qual, tendemos a usar alguns atributos para descrevê-las. “Revolucionário”, “conservador”, “reacionário”, “radical”, “moderado”, etc. Estas características inerentes de certas ideologias políticas antecedem-nas, e portanto podem ser usadas para traçar relações entre elas e entender como as ideologias se agrupam.  Primeiramente eu gostaria de esclarecer que não reconheço que o espectro político seja estanque, como uma linha reta: creio que há uma mobilidade grande dentro de um conjunto de matizes, mas que ainda assim tem suas limitações. Considero, por exemplo, que ideologias radicais e totalitárias não estão em extremos opostos mas sim compartilham características que permitem que agrupemos as mesmas num mesmo grupo, ou em grupos próximos.

Entender as diferentes mentalidades políticas é um passo para entender a base comum que compartilham certas ideologias. As cinco mentalidades que cito aqui são as mais básicas e mais facilmente identificáveis: reacionária, restauradora, conservadora, reformista, revolucionária. Eu poderia citar outras, mas como as outras duas que identifico (niilista e despótica) fogem dos esquemas ideológicos da política, optei por excluí-las deste artigo.

I. O reacionário ou passadista.
O que define um reacionário é a sua defesa de uma volta ao passado. Contudo, não é de um passado histórico registrado, documentado e compreensível que ele fala. O passado para um reacionário é uma coisa idealizada, uma golden age. O reacionário prega uma ruptura radical com o mundo moderno para implantar um novo modelo de sociedade baseado numa idealização do que foi uma civilização passada.

Por exemplo, os nacional-socialistas queriam estabelecer uma civilização germânica baseada naquilo que os socialistas alemães acreditavam ser o espírito do povo (Volk) alemão, como a organização da sociedade nos moldes militares do socialismo prussiano, as tradições germânicas e a religião pagã. No entanto, é uma falha típica do reacionário desconsiderar a cadeia de eventos que se sucedeu desde o fim da civilização que ele almeja restituir. Os nacional-socialistas, por exemplo, precisaram abrir mão do paganismo porque ele jamais poderia ser restituído entre os alemães. É simplesmente impossível reverter todos os eventos da história.

Dado o seu caráter de rompimento com o modelo de sociedade vigente, o reacionário é sempre, também, um revolucionário. O que difere o revolucionário de um reacionário é que o último pretende estabelecer, após a revolução, um modelo de sociedade que busca imitar (em grande parte) uma sociedade anterior, à qual ele credita uma aura de pureza e perfeição.

Exemplos de ideologias que decorrem da mentalidade reacionária são o nacional-socialismo, o anarco-primitivismo e ideologias teocráticas em geral.

II. O restaurador ou regressista.
O regressista, tal qual o reacionário, tem uma visão idealizada do passado, o qual ele pretende restaurar. Porém, o regressista não prega uma ruptura radical com a sociedade moderna, nem pretende retornar a esta golden age através da imposição violenta. O regressista acredita que é possível fazer isso por etapas, com um jogo político progressivo (aliás, regressivo) e que pode ser conduzido sem violência ou grandes choques para a população.

O regressista, diferente do reacionário, consegue estabelecer objetivos mais realistas porque pauta o seu programa político num passado histórico que pode ser conhecido quase que na totalidade pelos registros disponíveis. As suas fundações não estão perdidas em tempos longínquos ou reinterpretações do passado: ele consegue estabelecer um caminho de volta através do estudo de leis, políticas e tradições que foram outrora estabelecidas, revogando as leis modernas que vão na direção contrária das mesmas.

Exemplos de ideologias regressistas são o tradicionalismo, e, no Brasil, o monarquismo.

III. O conservador ou moderador.
O conservador defende que a sociedade em que vivemos deve ser conservada, preservada e protegida. Ele não acredita numa ruptura radical com o presente para arriscar um futuro utópico ou uma tentativa de restabelecer uma sociedade já extinta. O conservador acredita que as mudanças da sociedade devem ser feitas de maneira natural, lenta e gradual. Ele acredita que instituições lôngevas e que resistiram ao teste do tempo devem ser mantidas, pois tornam-se essenciais para a manutenção da sociedade. Por exemplo a moral religiosa, a família, a defesa dos mais necessitados. Toda e qualquer mudança que um conservador proponha tem o propósito único de corrigir aquilo que ele considera um desvio de rota, algo que possa destruir a sociedade vigente. 

O conservador nutre um profundo respeito pelo passado, pela história e pela tradição, mas não as idealiza ao ponto de querer parar ou retroceder as formas de governo. O conservador não despreza as inovações técnicas e científicas, mas também não acredita que exista uma medida exata do progresso, nem que uma melhoria material deva antepor-se à conservação de uma ordem moral duradoura. O conservador não acredita que a novidade seja uma qualidade em si, que o novo seja necessariamente melhor que o velho. Pelo contrário, acredita que o que já está estabelecido é certo e o que é novo é duvidoso, tendo o inovador portanto o ônus da prova de que sua proposta é melhor que a vigente. O conservador é sobretudo um cético.

Exemplos de ideologias conservadoras são o conservadorismo burkeano e o conservadorismo latino (ou continental).

IV. O reformador ou progressista.
O progressista, assim como o revolucionário, tem uma visão idealizada de um futuro que ele pretende tornar real. Porém, o progressista não prega uma ruptura radical com a sociedade moderna e não pretende instaurar esta nova sociedade pela violência. O progressista acredita que se deve construí-la em etapas, com avanços políticos progressivos e que podem ser conduzido sem grandes choques para a população.

O progressista, diferente do revolucionário, consegue estabelecer objetivos mais realistas porque pauta o seu programa político numa evolução histórica que pode ser inferida logicamente. Os seus objetivos não estão perdidos num futuro hipotético e surreal: ele consegue estabelecer um caminho através da implantação de leis, políticas e costumes que serão estabelecidas, atacando as leis e costumes que possam impedir este suposto progresso ou que ele julgue “reacionárias” (neste caso, regressistas ou conservadoras).

Exemplos de ideologias progressistas são o socialismo fabiano, o positivismo e a social-democracia.

V. O revolucionário ou futurista.
O que define um revolucionário é a sua defesa de uma ruptura com o passado e a instauração de um novo modelo de sociedade mais moderno, futurístico. Contudo, não é de um futuro previsível e realista que ele fala. O futuro para um revolucionário é uma coisa idealizada. O revolucionário prega uma ruptura radical com o mundo atual (“passadismo”) para implantar um novo modelo de sociedade baseado numa idealização do que a civilização deve ser.

Os comunistas, por exemplo, tentaram estabelecer uma sociedade socialista baseada naquilo que os bolcheviques acreditavam ser a melhor representação do socialismo marxista, com a organização da sociedade em moldes militares – formando verdadeiros exércitos de operários e camponeses, com a centralização de toda a Economia nas mãos do Estado, extinção da propriedade privada e abolição da religião. Porém, o erro típico do revolucionário é desconsiderar que muito daquilo que ele pretende destruir não só era um pilar da sociedade anterior como é também um princípio básico sobre o qual toda sociedade se sustenta. Ao extinguir a propriedade privada e tentar abolir a religião, os comunistas enfrentaram não só uma forte resistência como também desastrosas consequências econômicas que acabaram obrigando os comunistas não só a alinhar-se posteriormente com a Igreja Ortodoxa, como a implantar o NEP e, posteriormente, tentar emular o sistema de preços de mercados livres dentro de uma Economia planificada. Era simplesmente impossível manter o sistema econômico sem o sistema de precificação de mercado e simplesmente impossível planejar toda a Economia, e isto levou a sérios problemas que culminaram com a morte de dezenas de milhões de pessoas na URSS não só de fome, como também nos campos de trabalho escravo, agora necessários numa Economia planificada.

O que difere o revolucionário de um reacionário é que o primeiro pretende estabelecer, após a revolução, um modelo de sociedade completamente novo, planejado milimetricamente por seus proponentes, mas nunca antes testado.

Exemplos de ideologias revolucionárias são o socialismo (“marxismo”, “comunismo”) e o fascismo.