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Quem nunca ouviu coisas do tipo “o tempo cura tudo” ou “quando você tiver a minha idade vai entender o que estou falando”? Quem nunca tentou se confortar pensando “vamos dar tempo ao tempo”?

I. Tempo: uma tecnologia do pensar.
Vejamos o que diz a senhora Wikipédia sobre o tempo:

“O tempo é uma parte do sistema de medida usado para sequenciar eventos, comparar durações de eventos e intervalos entre eles, e quantificar graduações de mudança como o movimento de objetos. A posição temporal dos eventos com respeito ao presente transitório está continuamente mudando; eventos acontecem,  e então vão sendo cada vez mais empurrados para o passado. O tempo tem sido um grande objeto de estudo da religião, da filosofia, e da ciência. Defini-lo de uma maneira não-controversa e aplicável a todos os campos de estudo e tem iludido os maiores acadêmicos. Uma definição simples do tempo é “aquilo que o relógio mede”.

Minha opinião: o tempo não existe. Não da maneira como costumamos idealizá-lo. Aquilo a que chamamos tempo é a acumulação de eventos, ações e experiências que organizamos sequencialmente na nossa memória. Daquela definição simplória da Wikipédia podemos concluir que o cerne do tempo não é a sua transição ou a localização temporal, mas os eventos e os objetos.

Basicamente, inventamos as divisões discretas de tempo para organizar a nossa memória e planejar as nossas atividades. À medida que a vivência social do homem adquire um caráter cada vez mais complexo, com experiências e eventos cada vez mais sofisticados, ele precisa aumentar a sua capacidade de organização e precisão. Organizar é pensar, classificar, separar, discernir, quantificar.

É isso que fazemos quando medimos o “tempo”: organizamos na nossa memória os eventos na ordem em que eles acontecem, e planejamos os eventos na ordem e duração que queremos ou esperamos que aconteçam. Nosso raciocínio cronológico não difere muito do restante de nossas “tecnologias” como a aritmética ou a gramática: tem a função de organizar o pensamento e padronizar a vida em sociedade.

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

– Carlos Drummond de Andrade

Quanto mais complexa é a vida social humana – ou seja, quanto mais numerosos e mais complexos sejam os eventos e objetos que a circundam – maior é a necessidade de organizar-se, maior é a necessidade por precisão. Não é à toa que de nudistas que contavam luas nos tornamos profissionais que medem o tempo em quartos de hora, minutos, segundos ou milésimos de segundo.

II. O presente não existe
Vivemos no passado. Oitenta milésimos de segundo, para ser mais preciso.[1]
As pessoas normais, pelo menos.

Pensamos em reação aos estímulos a que nosso corpo é exposto. Se estamos falando de sons, podemos falar do tempo decorrido entre a queda de uma árvore e o momento em que a onda sonora atinge o tímpano. Se estamos falando de visão, estamos falando do tempo decorrido entre o reflexo da luz sobre uma pedra e o momento que a onda-partícula da luz é percebida pelos nossos sensores ópticos. Se falamos de tato, estamos falando do tempo decorrido entre a excitação de nervos e a percepção pelo cérebro. Tudo isto leva um tempo. Soma-se o tempo do “processamento”. Até que o “input” gere um “output”, o agora já esmaeceu-se nos milésimos de segundo entre percepção, pensamento e reação.

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo – o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: “Detém-te! És tão belo…!”, como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

-Jorge Luis Borges

O agora já passou. É inegável. Estamos numa eterna transição, seguindo o princípio da continuidade tão belamente descrito por Leibniz e que aterroriza os físicos sob o nome de “entropia”. Somos incapazes de deter um momento e chamá-lo de “agora”. Quando falamos do tempo presente, estamos implicitamente estabelecendo ou uma cadeia de causa-efeito imediata (“cheguei agora”) ou de uma determinada fatia do tempo (“o dia corrente, hoje”).

III. O futuro é uma hipótese

Compreendendo isso, podemos ampliar o escopo do nosso raciocínio para toda a História. Medimos o tempo para organizar nossas vidas, organizar o pensamento, organizar a memória. Na verdade, o que estamos organizando são eventos, eventos estes associados a ações ou paixões. Comemoramos o nosso nascimento, esperamos o recebimento do salário, planejamos comprar um carro, fazemos feriado no dia da Independência.

Quando falamos de futuro, estamos nos referindo a eventos e ações que planejamos ou esperamos que ocorram, não de um caminho pré-estabelecido e que pode ser seguido com segurança total sobre seus resultados. Não temos a capacidade de ver à frente no tempo: temos a capacidade de analisar eventos, e associar causas com efeitos. Assim, quando trabalhamos duro esperamos promoções, quando casamos planejamos ter filhos, quando há nuvens carregadas esperamos chuva, etc. O futuro, portanto, é uma hipótese: aquilo que pode acontecer, dependendo das ações que tomamos ou das circunstâncias que observamos hoje.

Estaremos rindo dos "carros do futuro" em 50 anos?

A falácia da “marcha inexorável da história” e o mito do progresso
O futuro não é algo fixo, determinado ou pré-estabelecido. Não é algo que possamos conhecer ou antever com certeza absoluta. Este foi e é o objeto de sedução da magia e de tantas religiões. Conhecer o futuro é dominar o mundo, é ser onipotente sobre o seu destino, é estar num patamar de segurança que nenhum humano jamais esteve. A obsessão de prever o futuro é o desejo primitivo do homem de fugir das responsabilidades, de evitar o risco, de fugir da tarefa árdua e extenuante da adaptação ao ambiente e da tomada de decisão. A obsessão com o futuro predeterminado explica porque é que tantas pessoas tem aversão aos juros e ao lucro: elas não entendem o que é tomar decisões baseando-se num futuro incerto.

A acumulação material e intelectual não pode ser feita sem um profundo respeito pelo que nossos antepassados obtiveram. Herdamos um passado e construímos sobre ele com base num futuro incerto, para acumular mais e legar isso para as gerações vindouras.

Este tipo de raciocínio, que encara o tempo como uma evolução linear necessariamente relacionada com avanços científicos, econômicos ou sociais, é típico de adeptos de ideologias radicalmente progressistas, como o futurismo fascista, o progressismo keynesiano, o socialismo marxista, o positivismo e o cientificismo. Ideologias assumidamente progressistas falham em resolver os conflitos humanos porque são incapazes de conciliar sua visão de mundo com o contexto em que estão inseridas: elas estão sempre “a frente de seu tempo”, e por isso se julgam acima da lei, dos bons costumes e da própria vida das pessoas. Para este tipo de mentalidade, os fins justificam os meios.

Via de regra, ideologias progressistas assumem um caráter profético: seus defensores sempre sabem o que acontecerá no futuro. Julgando-se portanto à frente de seu tempo, eles usam o discurso da vitória inevitável de seus ideais para angariar fiéis: “a marcha inexorável da história” provará que eles estão certos. Ou em palavras do ditador Fidel Castro: “a história me absolverá”.

Uma citação mais lógica é a de Churchill: “A história será gentil para mim, pois eu pretendo escrevê-la”. Este raciocínio expõe exatamente o que a História é: ação (no caso de Churchill, o ato de escrever). Não há um destino prefixado para o homem aqui na Terra, portanto ninguém pode ser o porta-voz do futuro. O futuro não será comunista, nem nazista, nem fascista. Não porque não é seu destino ser, mas porque só depende de nós impedir que o seja.

IV. O passado é a única coisa real a que podemos nos apegar

Já sabemos que mesmo aquilo que percebemos como “o agora” é apenas a percepção que temos do mundo como ele era a 80 milésimos de segundos atrás. Este ‘delay’ nos acompanha para a vida toda. Isto por si só já é uma realidade chocante para muitas pessoas, dadas as suas implicações sobre a maneira como pensamos a consciência e a liberdade.

A realidade é que não podemos construir absolutamente coisa alguma a partir do nada. Mesmo as linguagem mais elaboradas são construídas sobre bases muito simples e anteriores, e cuja explicação é desnecessária. Explicá-las é um insulto à inteligência. É como explicar o conceito de conceito, ensinar a aprender ou tentar explicar os conectivos lógicos mais simples como ‘e’ e ‘ou’: o entendimento dos mesmos já supõe o seu conhecimento de antemão.

Esta mesma condição afeta a todos os homens. Não só como indivíduos, mas em toda a relação entre gerações que constroem a longa cadeia de eventos que chamamos História. Em resumo, não podemos construir nada sem os recursos disponíveis hoje, que nos foram legados pelas gerações passadas. Do mesmo modo, não podemos pensar em absolutamente nada que já não tenha sido conhecido (mesmo que parcialmente) por nós a partir de experiências passadas: a leitura de filósofos da Antiguidade, a contemplação de uma paisagem, um sonho.

Quando falamos de política, de moralidade, de religião ou mesmo de ciência estamos discutindo justamente isso: nenhum tipo de ideologia que pregue uma ruptura radical com o passado pode ou deve ser levada a sério. Todas estas ideologias, sem exceção, se pautam elas próprias no passado que supõem condenar. A diferença entre as ideologias revolucionárias e as ideologias moderadas (conservadoras) é que as primeiras ou se baseiam numa idealização do passado (“golden age”) ou numa idealização do futuro enquanto as últimas se pautam somente na experiência, naquilo que já foi tentado, testado, provado pela resistência às intempéries da História. Resumindo, o moderado não troca o certo pelo duvidoso. O conservadorismo é o ceticismo aplicado à política.

Isto não significa que um conservador ou moderado vá se opor a toda e qualquer mudança no status quo. Implica que ele irá questionar, duvidar, criticar e por fim opor-se a qualquer proposta infundada.

V. Tempo vs. evento, paixão vs. ação.

O passado é memória, experiência, sabedoria, o fundamento da nossa vida. É o conhecimento organizado, acumulado por gerações e gerações e legado a nós. É a nossa fonte de conhecimento, o ‘input’.

O presente é o pensamento, a reflexão, a ponderação. É a tomada de decisão, a assunção de riscos, o cálculo, o movimento e a ação. É a contínua e infinita adaptação do homem à circunstância, e o seu domínio sobre as intempéries da Natureza.

O futuro é a consequência, o resultado, a conclusão esperada. O efeito do qual nossas ações são causa.  É o que queremos que seja, ou o que esperamos que seja. Esperar que seja é submeter-se às circunstâncias, é ser escravo das decisões alheias. Querer que seja, e não agir, é uma crença infundada no Destino. Querer que seja e fazê-lo ser a cada instante, na medida que o agora esvaece e acumula-se sobre o passado continuamente, é a única medida real que temos do progresso. O progresso não é futurista, e o futuro não é progressista.