A Superstição da Escola

Por Gilbert Keith Chesterton, tradução de Antonio Emilio Angueth de Araujo.

É um erro supor que o avanço dos anos traga opiniões retrógradas. Em outras palavras, não é verdade que o aumento dos anos implique no aumento do reacionarismo. Algumas das dificuldades dos tempos recentes são devidas ao otimismo dos velhos revolucionários. Magníficos homens de idade como o revolucionário russo Peter Kropotkin, o poeta Walt Whitman e William Morris foram para o túmulo esperando a Utopia, ainda que não esperassem o Paraíso. Mas a falsidade, como tantas falsidades, é uma versão falsa de uma meia verdade. A verdade, ou meia verdade, não é que os homens devam aprender com a experiência a serem reacionários; mas que eles devam aprender com a experiência a esperarem reações. E quando digo reações, quero dizer reações; devo desculpar-me, na cultura atual, por usar a palavra em seu sentido correto.

Se um menino dispara uma arma, seja numa raposa, num proprietário de terras ou no soberano reinante, ele será repreendido segundo o valor relativo desses objetos. Mas se ele dispara uma arma pela primeira vez, é provável que ele não espere o coice da arma, que ele não espere o forte golpe que ela pode dar-lhe. Ele pode passar a vida atirando nesses e em objetos similares; mas ficará cada vez menos surpreso com coice; isto é, pela reação. Ele pode até dissuadir sua pequena irmã de seis anos de atirar com rifles pesados, usados para matar elefantes; e, assim, dará a impressão de que está se tornando um reacionário. O mesmo princípio se aplica no disparo das grandes armas da revolução. Não é o ideal do homem que muda; não é sua Utopia que se altera; o cínico que diz, “Você esquecerá todo o brilho da lua do idealismo quando envelhecer”, diz o exato oposto da verdade. As dúvidas que chegam com a idade não são sobre o ideal, mas sobre o real. E uma das coisas que é inegavelmente real é a reação; isto é, a probabilidade prática de alguma reversão de direção, e de nosso sucesso parcial em fazer o oposto do pretendido. O que a experiência realmente nos ensina é: que há algo na estrutura e no mecanismo da espécie humana, pelo qual o resultado da ação sobre ela é sempre inesperada, e quase sempre mais complicada do que antecipamos.

Esses são os empecilhos da sociologia; e um deles está relacionado com a Educação. Se você me pergunta se penso que a população, especialmente a sua parte pobre, deve ser reconhecida como composta de cidadãos que podem governar o estado, respondo, com uma voz de trovão, “Sim”. Se você me pergunta se penso que eles devam ter educação, no sentido de uma cultura ampla e uma familiaridade com os clássicos da história, respondo novamente, “Sim”. Mas há, na consecução desse propósito, um tipo de empecilho ou coice que só pode ser descoberto pela experiência e não aparece impresso em papel, como acontece com o coice de uma arma. Mesmo assim, ele é, neste momento crucial, uma parte precipuamente prática de política prática; e, apesar de estar sendo um problema há bastante tempo, ele tem sido, sob condições recentes, um pouco mais enfatizado (se me permitem colorir essas páginas serenas e imparciais com uma sugestão política) de forma a trazer para o front, tantos socialistas altamente respeitáveis e tantas autoridades sindicais tão amplamente respeitadas.

O empecilho é este: que os educados pensam excessivamente em educação. Devo adicionar que os meio-educados consideram a educação como o ideal supremo. Esse não é um fato que apareça na superfície do ideal ou plano social; é o tipo de coisa que só pode ser descoberto pela experiência. Quando disse que desejava que o sentimento popular encontrasse expressão política, falei sobre o sentimento popular, real e autóctone que pode ser encontrado nos meios de transporte de terceira classe, nas festas folclóricas, nas festas nos feriados; e especialmente, claro (para o mais rígido investigador social da verdade), nos bares. Pensei, e ainda penso, que essas pessoas estão certas num vasto número de coisas em que os líderes populares estão errados.

O empecilho é que quando uma dessas pessoas começa a “aprimorar-se”, este é exatamente o momento em que começo a duvidar se aquilo é um aprimoramento. Esse indivíduo parece coletar com impressionante velocidade um número de superstições, das quais a mais cega e ignorante pode ser chamada de Superstição da Escola. Ele considera a Escola, não como uma instituição social normal, como o Lar, a Igreja, o Estado; mas como um tipo inteiramente sobrenatural e milagroso de fábrica moral, em que são fabricados, por mágica, os homens e as mulheres perfeitas. A essa idolatria da Escola ele está pronto a sacrificar o Lar, a História e a Humanidade, com todos seus instintos e possibilidades, imediatamente. A esse ídolo ele fará qualquer sacrifício, especialmente sacrifício humano. E no fundo da mente, especialmente da mente dos melhores homens desse tipo, há quase sempre uma de duas variantes da mesma concepção concentrada: ou “Se não fosse a Escola, eu não teria sido o grande homem que sou agora”, ou “Se eu tivesse freqüentado a Escola, eu seria maior ainda do que sou agora”. Que ninguém diga que estou zombando de pessoas que não tiveram educação; não zombo de sua “deseducação”, mas de sua educação. Que ninguém tome isso como um desprezo pelos meio-educados; desgosto da metade educada. Mas desgosto deles, não porque desgosto da educação, mas porque, dada a filosofia moderna ou a ausência dela, a educação está sendo voltada contra si própria, destruindo o próprio sentido de variedade e proporção que é o objeto da educação.

Ninguém que adora a educação aproveitou o máximo dela; ninguém que sacrifica tudo pela educação é sequer educado. Não preciso mencionar aqui os muitos exemplos recentes dessa monomania, que rapidamente se torna uma perseguição louca, como a absurda perseguição das pessoas que vivem em barcos. O que está errado é o desprezo de um princípio; e o princípio é que sem um gentil desprezo pela educação, nenhuma educação de um gentil-homem está completa.

Uso uma frase casual, casualmente; pois não me preocupo com o gentil-homem, mas com o cidadão. Contudo, há uma meia-verdade histórica no caso da aristocracia; que é, às vezes, um pouco mais fácil para o aristocrata ter esse último toque de cultura, que é uma superioridade em relação à cultura. Contudo, a verdade sobre a qual falo não tem nada a ver com qualquer cultura ou classe especial. Ela já pertenceu a um grande número de camponeses, especialmente quando eram poetas; é isso que dá um tipo de distinção natural a Robert Burns e aos poetas camponeses da Escócia. O poder que a produz mais eficazmente que qualquer linhagem de sangue ou raça é a religião; pois religião pode ser definida como aquilo que coloca em primeiro lugar as coisas primeiras.

Robert Burns era justificadamente impaciente com a religião que herdou do calvinismo escocês; mas ele devia algo a essa herança. Sua consideração instintiva dos homens como homens veio de seus ancestrais que se preocupavam ainda mais com a religião do que com a educação. No momento que os homens se preocupam mais com a educação que com a religião, eles começam a se preocupar mais com a ambição do que com a educação. Não é mais um mundo em que as almas são todas iguais perante os céus, mas um mundo em que a mente de cada um é direcionada a atingir vantagens desiguais sobre os outros. Começa a ser pura vaidade ser educado, seja auto-educado ou educado pelo estado. A educação deve ser uma lanterna dada a um homem para explorar tudo, mas muito especialmente as coisas mais distantes dele. A educação tende a ser um holofote que está centrado em si mesmo. Alguns aprimoramentos podem ser feitos, colocando holofotes igualmente luminosos e talvez vulgares nas outras pessoas. Mas a cura final é desligar as luzes da ribalta e deixá-lo perceber as estrelas.

Anúncios

4 comentários em “A Superstição da Escola”

  1. Fora que hoje, escolas (principalmente quando se trata de ensino médio) servem apenas para uma prova: vestibular (sendo substituído pelo ENEM, mais recentemente).

    Ou seja, são 3 anos que você aprende apenas aquilo que cai no vestibular, aquilo que cai no ENEM. Muitas coisas você não vai utilizar no seu curso superior e até no resto da sua vida, mas teve que aprender aquilo. Escolas com cursos técnicos quebram um pouco essa linha, mas geralmente seu material para as matérias comuns (as que caem no vestibular) será o mesmo das que focam apenas em “tirar boa nota no ENEM”. Infelizmente, por muitas vezes acaba sendo uma perda de tempo.

    Lembro-me de quando aquele programa da Globo que passa de sexta a noite (não lembro o nome) fez uma matéria sobre Singapura. Obviamente, assisti e fiquei esperando eles dizerem algo sobre a liberdade econômica de lá, mas não disseram, fizeram apenas uma pequena citação no começo, dizendo que “as ideias econômicas foram feitas para dar certo”. Falaram bastante de cultura e coisas do tipo.

    Mas teve algo de útil sim. Falaram sobre o ensino de lá, rigoroso porém com uma peculiaridade. Existe uma atenção muito grande para matérias como matemática financeira, por exemplo, já que a economia deles precisa disso. Então, eles ensinam bastante aquilo que o mercado deles pede, e não as vontades de um burocrata de um MEC da vida. E as crianças aprendem isso desde cedo, sendo inclusive alvo de algumas críticas, principalmente de quem não é de lá, já que seria errado “expor crianças a isso tão precocemente”.

    Pelo menos lá não vão ter muito tempo para aprender sobre revolução cubana…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.