A era da desinformação

I. O milagre
A Internet é um conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores interligados pelo TCP/IP que permite o acesso a informações e todo tipo de transferência de dados. Ela carrega uma ampla variedade de recursos e serviços, incluindo os documentos interligados por meio de hiperligações da World Wide Web (Rede de Alcance Mundial), e a infraestrutura para suportar correio eletrônico e serviços como comunicação instantânea e compartilhamento de arquivos.

A Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN) foi a responsável pela invenção da World Wide Web, ou simplesmente a Web, como hoje a conhecemos. Corria o ano de 1990, e o que, numa primeira fase, permitia apenas aos cientistas trocar dados, acabou por se tornar a complexa e essencial Web.

O responsável-mor pela invenção chama-se Tim Berners-Lee, que construiu o seu primeiro computador na Universidade de Oxford, onde se formou em 1976. Quatro anos depois, tornava-se consultor de engenharia de software no CERN e escrevia o seu primeiro programa para armazenamento de informação – chamava-se Enquire e, embora nunca tenha sido publicada, foi a base para o desenvolvimento da Web.

Em 1989, propôs um projecto de hipertexto que permitia às pessoas trabalhar em conjunto, combinando o seu conhecimento numa rede de documentos. Foi esse projecto que ficou conhecido como a World Wide Web.

A Web funcionou primeiro dentro do CERN, e no Verão de 1991 foi disponibilizada mundialmente.   Em 1994 Berners-Lee criou o World Wide Web Consortium, onde actualmente assume a função de director. Mais tarde, e em reconhecimento dos serviços prestados para o desenvolvimento global da Web, Tim Berners-Lee, actual director do World Wide Web Consortium, foi nomeado cavaleiro pela rainha da Inglaterra.

De acordo com a Internet World Stats, 1,96 bilhão de pessoas tinham acesso à Internet em junho de 2010, o que representa 28,7% da população mundial. Segundo a pesquisa, na América Latina e Caribe, um pouco mais de 200 milhões de pessoas têm acesso à Internet (de acordo com dados de junho de 2010), sendo que quase 76 milhões são brasileiros.

A internet abriu um espaço democrático sem precedentes comparáveis na história da humanidade. Assim como a invenção da imprensa, na Europa, por Gutemberg levou a uma democratização do conhecimento e permitiu a divulgação de novas idéias pela Europa, a Internet tornou o acesso e a divulgação de informação muito mais democráticas, muito mais baratas e muito mais simples para as pessoas. A explosão de informação que ela gerou não é equiparável a qualquer outra que a tenha precedido.

Imagine hoje como você viveria se não tivesse acesso ao Google, a um serviço de e-mail, ao site da sua instituição de ensino, à Wikipédia ou às redes sociais. Seriamente, seria um caos. O custo material e o tempo despendido para fazer tarefas como enviar uma mensagem, matricular-se numa disciplina ou fazer uma pesquisa seria muito, muito maior.

Mas a internet não é maravilhosa só porque nos demanda menos tempo e recurso para fazer coisas que poderíamos fazer por correio, telefone ou pessoalmente. Ela o é porque te dá voz. Diferente dos outros meios de comunicação, a internet liga o divulgador de conteúdo aos leitores de conteúdo de uma maneira diferente. Se antes um divulgador precisava publicar 30 panfletos para que 30 pessoas pudessem ler, hoje ele só precisa de 1 banner digital para que os mesmos 30 leiam as suas idéias. A redução de custo e a ampliação do poder de comunicação é absurda.

II. O pesadelo
No entanto, toda esta informação, toda esta liberdade e toda esta democratização também trazem problemas grandes. Aliás, problemas para os grandes. As grandes empresas agora precisam se preocupar com o que seus clientes falam delas na web. Os governos tem de prestar contas para seus cidadãos online, além de ouvir as suas reclamações e exigências. A Justiça precisa se adaptar para garantir que os cidadãos terão seus direitos respeitados num meio cuja descrição mais próxima é a palavra “caos”.

A internet, como todo meio de divulgação de idéias, tem um potencial de contestar modelos vigentes. A partir da exposição do cidadão a outras culturas, outros costumes, outras realidades, ele tem maior consciência de si e do seu potencial. Ele começa a entender que ele tem o poder de fazer e dizer coisas que ele antes não poderia. E isto arrisca certos modelos de sociedade. Não é a toa que em Cuba a cobertura de internet é inferior à do Haiti e os norte-coreanos nem sonham.

Temos casos recentes de mobilizações, transformações e revoluções sociais onde a internet desempenhou um papel essencial. Independente de serem as causas legítimas ou não, a Primavera Árabe e a Marcha Contra a Corrupção são alguns dos exemplos que podemos citar. Isto é uma prova de que a internet promove o empowerment do cidadão, enquanto for uma rede livre. Porém, não é este o futuro que os governos querem para a internet.

III. O inferno
A liberdade de expressão sempre foi alvo constante de ataques por parte dos governos. Isso não é novidade para ninguém. Livros proibidos e filmes censurados são exemplos modernos do que uma pequena casta de juristas e administradores podem fazer para cercear a liberdade dos cidadãos. Sempre, é claro, alegando defender o cidadão de um crime sem vítima, de um mal que só o jurista e o político são iluminados o suficiente para entender.

Porém, o que vem por aí é um ataque muito mais sério. Quem acompanha as notícias e os debates na internet com certeza ouviu falar de projetos como o SOPA ou o PIPA nos EUA. Dentre outras questões, são medidas para censurar websites, proibir o compartilhamento de arquivos entre pessoas e ainda acessar informações pessoais do cidadão.

Achou ruim? Na verdade, é pior. Não só temos no Brasil projetos tramitando para o controle dos meios de comunicação (o que inclui a internet) – como o tal do “Marco Regulatório” do PT, como já somos um dos países que mais censuram a internet. Não acredita? Vejamos o que diz a Política de Transparência do Google sobre as requisições governamentais no período de Julho a Dezembro de 2010:

Rússia: 1 requisição de remoção (10 items removidos)

Paquistão: Menos de 10 requisições de remoção.

Líbia: 68 requisições de remoção (203 items removidos)

Brasil: 263 requisições de remoção. (12363 items removidos)
1084 requisições de dados.

Lembrando que não estamos falando de denúncias feitas por usuários… estamos falando de requisições governamentais para remover conteúdo e obter informações dos usuários.

Entenderam a dimensão da coisa? A Rússia – um país onde gays não podem fazer paradas sem serem enxotados pela polícia, o Paquistão – uma teocracia islâmica e a Líbia – que era uma ditadura, juntas, não somam nem 90 requisições governamentais de remoção de conteúdo. O Brasil, sozinho, tem 263 requisições de remoção de conteúdo no mesmo período. No período de janeiro a junho de 2011, foram 224 requisições de remoção e 703 requisições de dados que expuseram mais de 1800 usuários brasileiros do Google. Ou seja, estamos num regime que censura a internet mais do que teocracias islâmicas. É o Estado invadindo a sua privacidade cada vez mais.

Claro, você não verá nenhuma informação dessas na televisão ou na propagandinha do PT e da Petrobrás. Mas a fonte dos dados pode ser consultada aqui: http://www.google.com/transparencyreport/governmentrequests/map/

IV. O levante
Nós brasileiros precisamos estar atentos aos nossos direitos. Mais do que a benefícios assistencialistas com os quais o governo compra votos. Um direito inalienável do homem é a liberdade, e a liberdade de expressão não é uma exceção. Somos incessantemente desrespeitados neste país onde leis absurdas e que estupram o censo-comum são enfiadas goela abaixo no povo. Um quer reviver o racismo institucional, outro quer que homens vestidos de mulher possam entrar no banheiro das mulheres, outro quer acabar com o direito de propriedade. Agora estão minando os meios de comunicação através do tal Marco Regulatório, da PLC22, do PNDH-3 e de outras sandices. É indiscutível que a maioria esmagadora dos brasileiros se opõe a esses projetos controversos que transitam tranquilamente na nossa política sem qualquer oposição decente. Se os políticos da oposição não fazem o seu trabalho, é dever moral do povo fazê-lo.

Quando a injustiça torna-se a lei, desobedecê-la torna-se um dever. Então, não fique parado e lute pelos seus direitos: saia às ruas, mostre a sua revolta, não permita que seus direitos sejam jogados na lata do lixo.

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Autor: Renan Felipe dos Santos

Indie Game Localizer.

2 comentários em “A era da desinformação”

  1. Sem querer defender os pedidos governamentais, mas no meio dessas requisições não podem estar inclusos conteúdos como pedofilia, mesmo que sejam apenas uma pequena parte?

    1. Sim, Lucas, claro que pode haver conteúdos deste tipo. Mas compare com a Rússia ou os Estados Unidos e veja a discrepância no número de requisições. É impossível que tanta requisição seja por conta de crimes virtuais.

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