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Último sábado completaram-se 15 anos da morte de um dos maiores jornalistas brasileiros: Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, ou simplesmente Paulo Francis.

Francis nasceu no Rio de Janeiro em 1930, e ganhou este pseudônimo em 1951 quando entrou para a escola de teatro de Carlos Magno, sob o pretexto de seu nome ser impronunciável no Brasil. Francis concordava, apesar de achar que seu novo pseudônimo parecia nome de bailarino de teatro revista.

Aos 27 anos já era crítico de Teatro do Diário Carioca, entrando assim no mundo jornalístico. Nesta época, era defensor fervoroso do brizolismo. Após o golpe de 64 foi um dos fundadores do semanário O Pasquim, que, segundo o próprio Francis, simplificou a linguagem do jornalismo brasileiro, além de trabalhar na Tribuna da Imprensa, onde difundia suas idéias trotskistas. Aliás, afirmava que o trotskismo era mais atraente do que o stalinismo, o marxismo e todas as outras ideologias de esquerda.

Com o cerco da ditadura militar, em 1971 Francis se exilou nos Estados Unidos, a partir daí começou a se afastar das idéias de esquerda e se tornou defensor ferrenho do capitalismo liberal. Francis percebeu que o monstro o qual criticava, funcionava de forma eficiente nos EUA. Suas visitas à URSS também contribuíram para sua mudança de postura, dizia só funcionar à base de polícia. Ao definir sua mudança ideológica, Francis proferiu uma de suas inúmeras frases de efeito:

Me transformei de criança a adulto.

A partir de 1980 se tornou comentarista das Organizações Globo, fruto de uma mudança de postura com relação ao então dono das organizações Roberto Marinho. No início Hélio Costa, então chefe de Francis, achou sem graça a forma como o jornalista fazia seus comentários, sendo assim Francis criou a projeção de voz pela qual se tornaria conhecido do grande público.

Em suas colunas nos grandes jornais, Francis sempre causava polêmica, seja criticando uma peça de teatro, seja criticando políticos e partidos. Aliás, críticas ao candidato Lula e ao PT foram a causa de sua briga com o então ombudsman da Folha de São Paulo, Caio Túlio Costa.  O eleitorado petista enviou inúmeras cartas criticando Francis, que sempre achou uma piada Lula ser candidato à presidência de um país tão complicado como o Brasil. Caio Túlio comprou a briga dos petistas. Depois de longas réplicas e tréplicas, Caio chamou Francis de cronista, que revidou o chamando de lagartixa pré-histórica. E nas palavras de um amigo de Francis, Diogo Mainardi, o resultado desta disputa:

A Folha preferiu o atraso, preferiu a lagartixa pré-histórica ao Francis.

Depois deste acontecimento, Paulo Francis se mudou para o Estado de São Paulo.

Um de seus maiores sucessos, foi sem dúvida, sua participação no programa Manhattan Connection do GNT, ao lado de Lucas Mendes, Nelson Motta e Caio Blinder, com quem Francis tinha discussões  acaloradas em praticamente todos os programas. E mesmo quando não tinha razão, incrivelmente vencia a discussão, tamanha a diferença intelectual entre os dois. E foi por lá que ele nos brindou com suas melhores frases, e que causaram enormes polêmicas. Dentre elas, sua oposição ferrenha aos Clinton e seu apoio a Colin Powell.

Aliás, foi no Manhattan que Francis teve um de seus maiores problemas. Em 1996, declarou que diretores da Petrobrás tinham contas na Suíça. Dias depois os diretores da estatal entraram com um processo contra ele em Nova Iorque, e o pior, o processo era pago pela Petrobrás, e não por seus diretores. Francis ficou abalado, preocupado. O então Senador José Serra tentou intervir junto ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que deu ordens para que Rennó, o então presidente da estatal, retirasse o processo. Não retirou.

Há quem diga que foi o processo que matou Francis, de concreto foi um ataque cardíaco no dia 4 de fevereiro de 1997. Os sintomas eram tratados até então como bursite pelo médico pessoal do jornalista. O Brasil havia perdido um grande cidadão.

Cidadão apreciador de ópera, era fã de Wagner,  gostava de beber. Dizia que bebia para tornar as pessoas mais atraentes e parou de beber, segundo ele mesmo, porque passava vergonha quando bebia. Defensor ferrenho da legalização das drogas, dizia que maconha era inócua, e que o sujeito só se vicia em drogas se já estiver procurando algo para se afundar. Achava que cinema era algo sem importância nenhuma, nenhum filme chegava aos pés de um livro de Dostoievski. Dizia ser da opinião de Churchill:

Nas reuniões, todos devem discutir 40 minutos e no final concordarem comigo

Francis faz falta, ainda mais em uma época que o politicamente incorreto é quase um crime, que o jornalismo de opinião está morto. Faz falta alguém que não pense pela cartilha marxista, faz falta alguém verdadeiro, faz falta Paulo Francis.