O neo-ateísmo e o Estado Laico

Algo tem me incomodado nos últimos tempos. Não como uma verdade incômoda que abre nossos olhos, mas uma inverdade que vem ganhando inúmeros adeptos. Inverdade promovida às cegas por grupos ateus militantes (sim, neo-ateus pregam o ateísmo, como se fosse uma religião). Esses grupos tentam manipular a população através de um conceito que ganhou corpo no fim do século XIX, o laicismo. Não sei se por desonestidade intelectual ou verdadeira desinformação, confundem – a todos e a si mesmos – o termo com o que seria um Estado Ateu.

O que é um Estado Ateu? Um estado que se oponha a qualquer manifestação religiosa ou crença em uma divindade espiritual (normalmente divindades políticas são aceitas, então o motivo fica claro: ninguém deve ofuscar o brilho do grande líder). Não só deixa de adotar símbolos como reprime qualquer comportamento religioso. Exemplos disso foram os governos comunistas da URSS, da China e da Albânia. Este, diferente do Estado Laico, um conceito simples.

Enver Hoxha, ditador da Albânia socialista, criou o primeiro Estado oficialmente ateu do mundo. Diversas perseguições contra cristãos e muçulmanos foram perpetradas durante o seu regime pela Sigurimi.

O Estado Laico é um Estado que não se deixa interferir por instituições religiosas, assim como não interfere nas instituições religiosas. Tem como objetivo assegurar e respeitar a liberdade de culto. Assim sendo, não só deve garantir que ninguém seja discriminado por sua escolha, como deve também respeitar traços religiosos que se confundem com traços culturais de um povo. Isto o é, religiões que fazem parte da tradição de uma nação. Estes aspectos não são difíceis de assimilar, apesar de aí morar a confusão.

Plutarco Elías Calles, ateu da esquerda mexicana que presidiu o México oficialmente até 1928 e extra-oficialmente até 1935, acabou com a liberdade de culto no México através de leis autoritárias que culminaram na Guerra Cristera.

Ultimamente grupos de neo-ateus (como a ATEA) têm compartilhado nas redes sociais imagens pedindo a retirada de símbolos que se referem à Igreja Católica de prédios públicos, atestando que ostentá-los agride o conceito de Estado Laico. Não agride. A Igreja Católica foi uma instituição que, assim que instalada no Brasil, caminhou junto com nossa formação como povo. O Brasil já foi um país oficialmente católico. Uma cruz em um tribunal não agride a ideia de Estado Laico, mas alude à nossa história, à formação de uma nação que até hoje mantém traços conservadores (diferente de seu governo). Uma cruz em um tribunal apenas representa o respeito por uma instituição que se confunde com a história do Brasil desde os tempos do descobrimento.

Imagens religiosas, cristãs ou não, não ferem o Estado Laico. O Estado Laico não proíbe a manifestação religiosa no meio político, apenas separa os poderes do Estado daqueles das Instituições Religiosas.

Para entender porque meros símbolos não agridem o secularismo de um Estado, vejamos o funcionamento de uma teocracia, em que assuntos religiosos interferem diretamente não apenas nos assuntos do governo, como na vida do cidadão comum.

Um governo teocrático não o é por ostentar símbolos religiosos. Em um estado não secular a religião é obrigatória. As leis do país são os dogmas da religião. Aqueles que se recusam a seguir a religião podem o fazer apenas em casa ou em (raramente liberados) templos específicos, tendo que pagar pesada tributação por sua escolha. São países onde a liberdade religiosa não existe. Quase como um Estado Ateu às inversas. E para isso não precisa existir nenhum símbolo religioso em prédios públicos.

Aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica do Irã – um exemplo de Estado Teocrático. A Sharia, lei muçulmana, é aplicada a todos.

Entendido esse conceito fica fácil perceber que por mais que o Estado (no caso o Brasil) aluda a uma religião específica, não deixa de constituir um Estado Laico. A constituição garante a liberdade religiosa, isso é, ninguém pode ser discriminado por sua fé. Por mais que exista uma cruz em um tribunal, um ateu não será julgado de maneira diferente de um católico. Aliás, o provável é que ninguém saiba que o sujeito é ateu, já que não é isso que está em jogo. Não existem benefícios aos seguidores de uma religião. Não existem favorecimentos políticos a católicos. O Brasil é um Estado Laico. Se uma cruz em um prédio público ofende a um ateu, quem sabe logo também preguem que em nome da secularidade sejam proibidos todos os símbolos religiosos (mesmo os portados por particulares), já que esses símbolos os ofendem.

James Madison, forte defensor do laicismo.
John Locke, defensor da liberdade de culto e tolerância religiosa. Um dos maiores representantes do liberalismo clássico.

Essa é a parte simples do secularismo. A parte complicada (que a maioria dos neo-ateus parece desconhecer) é quando surgem as legislações de um país. O direito evoluiu ao longo do tempo procurando coesão social. E apesar de o moderno ter rompido o Estado e o Direito da moral e da religião, herdou conceitos já antigos e relacionados justamente com a moral e a religião. Ao contrário do que tentam fazer parecer, Estado Laico não é a separação entre Estado e Religião: é separação entre Estado e Igreja (ou outra instituição religiosa), o que significa que decisões tomadas pelo Estado não devem influenciar no poder da Igreja e vice-versa.

É inegável o efeito que a religião exerceu sobre a organização dos povos ao longo da história, inclusive fazendo o papel de Estado antes da ascensão do Estado-nação na Europa. A religião cristã moldou o pensamento ocidental, e por isso é impossível a dissociar totalmente da vida dos cidadãos, mesmo daqueles não cristãos. O Estado Laico acaba por ser uma teoria impossível de ser levada às últimas conseqüências em todos os seus aspectos, principalmente se deseja cumprir sua principal função, que é a de garantir e respeitar a escolha religiosa dos cidadãos.

Richard Dawkins, zoólogo ateu e figura chave no movimento fanático antirreligioso dos “neo-ateus”. Possui tanta autoridade moral e acadêmica para discutir religião quanto um teólogo tem para discutir zoologia: nenhuma.

Perdidos naquilo pelo que lutam, os neo-ateus tentam desmerecer a inteligência de deístas, considerando a si mesmos como pessoas superiores, mais cultas, mais “racionais”. Esquecem-se que alguns dos maiores filósofos e cientistas da história foram deístas em sua maneira. Não cabe aqui citá-los, pois o objetivo não é assumir a mesma postura arrogante que assumem os neo-ateus em sua nova religião. Um neo-ateu não é apenas alguém alheio à religião ou que nega a concepção de Deus. Ele é um indivíduo que ostenta orgulhosamente o título de ateu, assim como o cristão já ostentou a cruz ou o judeu a estrela de Davi. É um indivíduo que reverencia Hitchens e Dawkins como profetas, assim como é reverenciado Jesus pelos cristãos. E seu deus é Darwin, tão grande quanto o Deus cristão, para os ateus. Enfim, o neo-ateísmo é um movimento que tem gosto de religião, cheira como religião, se parece com religião, mas seus seguidores juram (quem sabe em nome de Darwin) que não é uma religião.

Os egos racionalistas dessa parcela da população esquecem que descobertas científicas, apesar de paradigma orientador da razão ocidental, são descartáveis: uma descoberta só existe para ser superada. E ao esquecerem deste detalhe, esquecem que a ciência diversas vezes serviu para apoiar práticas absurdas como o racismo “científico” (uma abordagem sobre isto é feita neste artigo) . Esquecem que a ciência é financiada pelos governos, portanto não é totalmente imparcial. Esquecem que a ciência é fruto da percepção humana: passível de erros.  Esquecem que a ciência tem um escopo limitado de trabalho, que não trata de definir padrões morais nem o que deve ser feito das suas descobertas. E esquecem, principalmente, que o ser humano apesar de um ser racional, não utiliza da racionalidade durante todo o tempo. E que por esse motivo a moral cristã, contra a qual lutam ferozmente, foi e é extremamente necessária para a existência de uma coesão social. Isto pode parecer um tanto quanto utilitarista ao invés de simplesmente espiritual, mas essa moral continua a guiar a vida em sociedade, mesmo daqueles que veementemente renegam a cristandade.

Não consigo ver o ateísmo militante senão com a desconfiança de que é um movimento que não sabe o que busca. Não tem identidade própria: vive da negação da identidade daquilo que ataca (a Religião). É mais lógico referir-se a este movimento como antiteísta ou antirreligioso, pois o cerne de seus dogmas é justamente assumir que a Religião é um mal e que o mundo seria melhor se todo mundo fosse ateu. Ateus não são discriminados pelo Estado. Não são discriminados como indivíduos, muito menos como cidadãos. São pessoas que gozam de plenos direitos, de plena liberdade de expressão (inclusive para fazer ataques gratuitos contra instituições religiosas que mal sabem de sua existência). Mas fazem um barulho tremendo para reclamar de uma cruz em prédio público. Simples assim.

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12 comentários em “O neo-ateísmo e o Estado Laico”

  1. Nunca ouvi falar que os ateus querem um Estado ateu, e sim laico. Também não conheço ateus que queiram converter os religiosos ao ateísmo; religião é problema de fôro íntimo, e que se dane quem acredita em duendes. O problema é quando esse fôro já não é tão íntimo mais, e passa a determinar ações na esfera pública. Basta lembrar de George Bush, dos aiatolás, do Taleban, etc etc etc.

    O direitoso articulista diz:

    — “O Estado Laico é um Estado que não se deixa interferir por instituições religiosas, assim como não interfere nas instituições religiosas. /…/ deve também respeitar traços religiosos que se confundem com traços culturais de um povo. Isto o é, religiões que fazem parte da tradição de uma nação”.

    Até aí, tudo bem. O problema é até onde chega isso que ele chama de “respeito”:

    — “Ultimamente grupos de neo-ateus têm compartilhado nas redes sociais imagens pedindo a retirada de símbolos que se referem à Igreja Católica de prédios públicos, atestando que ostentá-los agride o conceito de Estado Laico. Não agride. A Igreja Católica foi uma instituição que, assim que instalada no Brasil, caminhou junto com nossa formação como povo. O Brasil já foi um país oficialmente católico. Uma cruz em um tribunal não agride a ideia de Estado Laico, mas alude à nossa história, à formação de uma nação que até hoje mantém traços conservadores (diferente de seu governo). Uma cruz em um tribunal apenas representa o respeito por uma instituição que se confunde com a história do Brasil desde os tempos do descobrimento”.

    Ele apela à história da “formação de uma nação que até hoje mantém traços conservadores”; como bom direitista que é, julga que tais traços conservadores possuam algo de positivo. O que ele faz é exatamente o mesmo que faz toda religião: justifica a si mesma, suas idéias e seus atos apelando para o passado, simplesmente porque “sempre foi assim”.

    São duas falácias ao mesmo tempo. O conservadorismo pretende justificar a tradição apelando para a tradição; para um passado que não poderia, evidentemente, deixar de estar envolvido nas brumas míticas da ignorância e/ou da má-fé: por isso, trata-se de justificar (a ostentação de símbolos de) apenas uma religião, dentre tantas existentes no país.

    Poderíamos dizer que a religião católica formou o nosso povo à custa de muito sangue negro e indígena, e sua presença nos espaços públicos é uma forma de exclusão das demais religiões, bem como dos que não acreditam em nenhuma.

    — “O Brasil já foi um país oficialmente católico”. E daí? Foda-se…

    Para defender que, “por mais que o Estado (no caso o Brasil) aluda a uma religião específica, não deixa de constituir um Estado Laico”, ele compara

    1) o Brasil com um país teocrático (isso devia ser chamado de “falácia da Poliana”, pois nivela pelo que há de mais baixo!), e não com um país onde o Estado é realmente laico;

    e 2) compara a exigência do ateu por um Estado laico com a suposta exigência de tornar os próprios indivíduos ateus, o que é uma extrapolação mentirosa (“Se uma cruz em um prédio público ofende a um ateu, quem sabe [quem sabe? Isso lá é recurso argumentativo?] logo também preguem que em nome da secularidade sejam proibidos todos os símbolos religiosos (mesmo os portados por particulares), já que esses símbolos os ofendem”). Ou seja, compara o Estado à sociedade civil e imagina que os ateus tenham a pretensão de que uma reivindicação de caráter público seja imediatamente remetida à esfera privada.

    Ao tentar provar que o “Estado Laico não é a separação entre Estado e Religião: é separação entre Estado e Igreja”, ele apela novamente para a história:

    — “É inegável o efeito que a religião exerceu sobre a organização dos povos ao longo da história, inclusive fazendo o papel de Estado antes da ascensão do Estado-nação na Europa [devemos dar os parabéns à Igreja pela Idade Média!]. A religião cristã moldou o pensamento ocidental, e por isso é impossível a dissociar totalmente da vida dos cidadãos, mesmo daqueles não cristãos”.

    Como bom reacionário que é, nosso articulista pretende que o futuro retroceda em direção a um passado glorioso que só existiu no fundo de sua imaginação, um passado sobre o qual reveste a imagem de um paraíso perdido.

    Não ocorre a este indivíduo que aquilo que no pensamento ocidental foi moldado pela religião é uma das coisas que está justamente em questão e que trata-se de superar. Se isso é realmente “impossível”, como ele afirma, então alguém aí faça o favor de mandar esse sujeito ler os Levíticos e lhe perguntar se aquilo é o que devemos ter em mira ao discutir o Direito, p.ex.

    — “Um neo-ateu não é apenas alguém alheio à religião ou que nega a concepção de Deus. Ele é um indivíduo que ostenta orgulhosamente o título de ateu, assim como o cristão já ostentou a cruz ou o judeu a estrela de Davi.”

    Uau, isso é uma crítica? É genial: ele nos compara a ele mesmo!

    Ele só se esquece de um detalhe: não combatemos aquilo que não existe. E se adoramos Darwin, não foi porque Darwin andava sobre as águas ou voava pelos céus.

    — “Os egos racionalistas dessa parcela da população esquecem que descobertas científicas, apesar de paradigma orientador da razão ocidental, são descartáveis: uma descoberta só existe para ser superada”.

    Ok, vamos descartar a lei da gravidade e sair flutuando pelo ar. Será uma medida útil e importante para resolver os problemas de trânsito nas capitais…

    — “esquecem que a ciência diversas vezes serviu para apoiar práticas absurdas como o racismo “científico”. Esquecem que a ciência é financiada pelos governos, portanto não é totalmente imparcial. Esquecem que a ciência é fruto da percepção humana: passível de erros. Esquecem que a ciência tem um escopo limitado de trabalho, que não trata de definir padrões morais nem o que deve ser feito das suas descobertas. E esquecem, principalmente, que o ser humano apesar de um ser racional, não utiliza da racionalidade durante todo o tempo. E que por esse motivo a moral cristã, contra a qual lutam ferozmente, foi e é extremamente necessária para a existência de uma coesão social.”

    De fato, a ciência é uma atividade humana. E, de fato, o ateísmo é um humanismo. Não esquecemos de nada do que ele afirma que esquecemos. Colocar a ciência acima da religião é apenas colocar a dúvida e a humildade acima do dogma e da arrogância. É colocar uma atividade contínua de conhecimento acima da passividade cristalizada em torno de mitos que cabe aos fiéis apenas engolir. E seguimos em frente, rumo à emancipação do homem, não apenas das amarras da irracionalidade religiosa, mas também da irracionalidade política e econômica, que nos alienam e, consequentemente, alienam a ciência.

    Quando um indivíduo não utiliza da racionalidade, não esperamos um comportamento moral. Entretanto, tal é o comportamento religioso: irracional e imoral. Todos os valores morais que fortalecem a coesão social são anteriores à religião, e ela não poderia se disseminar sem agregá-los de alguma forma, ainda que muito contraditoriamente. Não é por outro motivo que nosso articulista conservador defende uma moral que “não utiliza da racionalidade durante todo o tempo”.

    Ou será que esta moral é o que fará o papel de policial (ou enfermeiro) da ética, quando o “ser humano” não utilizar, em algum momento, da racionalidade? Provavelmente ele deve estar se referindo ao comportamento dos que negam a existência de deus…

    — “É mais lógico referir-se a este movimento como antiteísta ou antirreligioso, pois o cerne de seus dogmas é justamente assumir que a Religião é um mal e que o mundo seria melhor se todo mundo fosse ateu”.

    Eu não tenho nenhum problema com isso. Sou mesmo anti-religioso. Quanto aos meus dogmas contra a religião e meu desejo de que todos fossem ateus, são dogmas e desejos baseados em fartas evidências empíricas, que posso apresentar a hora que este defensor do catolicismo sem-vergonha quiser, coisa que infelizmente não posso esperar que ele também faça quanto aos seus próprios dogmas e desejos.

    1. “Nunca ouvi falar que os ateus querem um Estado ateu, e sim laico.”
      Descreva um Estado Laico.

      “Religião é problema de fôro íntimo, e que se dane quem acredita em duendes. O problema é quando esse fôro já não é tão íntimo mais, e passa a determinar ações na esfera pública. Basta lembrar de George Bush, dos aiatolás, do Taleban, etc etc etc.”
      Religião é Política, Política é Religião. Poderíamos dizer o mesmo da Ideologia Política, não? Sua ideologia é de foro íntimo, e foda-se quem acredita em social-democracia ou trabalhismo. A questão parece simples assim, mas não é. A Religião continua a formar as concepções e as opiniões das pessoas, e a Política sendo feita de pessoas naturalmente abarcará estas concepções e opiniões.

      “Ele apela à história da “formação de uma nação que até hoje mantém traços conservadores”; como bom direitista que é, julga que tais traços conservadores possuam algo de positivo.”
      Você cometeu um erro gravíssimo. O texto que você citou não é de minha autoria, é de Hassan Fawaz, outro articulista do blog. Se por traços conservadores você se refere às tradições de um determinado povo, com certeza elas possuem algo de positivo.

      “O que ele faz é exatamente o mesmo que faz toda religião: justifica a si mesma, suas idéias e seus atos apelando para o passado, simplesmente porque “sempre foi assim”.”
      O provado ao não-provado, o testado ao não-testado. É o princípio da prudência.

      “São duas falácias ao mesmo tempo. O conservadorismo pretende justificar a tradição apelando para a tradição; para um passado que não poderia, evidentemente, deixar de estar envolvido nas brumas míticas da ignorância e/ou da má-fé: por isso, trata-se de justificar (a ostentação de símbolos de) apenas uma religião, dentre tantas existentes no país.”
      Que tal a falácia Ad Novitatem? Não é o estabelecido que se tem de provar, é a mudança que deve ser provada. A novidade, a mera mudança, não constitui uma qualidade em si.

      “Poderíamos dizer que a religião católica formou o nosso povo à custa de muito sangue negro e indígena, e sua presença nos espaços públicos é uma forma de exclusão das demais religiões, bem como dos que não acreditam em nenhuma.”
      E branco também, não esqueça. Não esqueça, também, de que o catolicismo e o protestantismo são as religiões mais seguidas pelos negros no Brasil, ao passo que as religiões de matriz africana tem menos seguidores que o espiritismo ou o próprio ateísmo.

      “1) o Brasil com um país teocrático (isso devia ser chamado de “falácia da Poliana”, pois nivela pelo que há de mais baixo!), e não com um país onde o Estado é realmente laico;”
      A exibição de um Estado Teocrático e de um Estado Ateu mostram os extremos de ambos os lados. Podemos citar uma série de outros países laicos onde os símbolos permanecem até na bandeira.

      “2) compara a exigência do ateu por um Estado laico com a suposta exigência de tornar os próprios indivíduos ateus, o que é uma extrapolação mentirosa (“Se uma cruz em um prédio público ofende a um ateu, quem sabe [quem sabe? Isso lá é recurso argumentativo?] logo também preguem que em nome da secularidade sejam proibidos todos os símbolos religiosos (mesmo os portados por particulares), já que esses símbolos os ofendem”). Ou seja, compara o Estado à sociedade civil e imagina que os ateus tenham a pretensão de que uma reivindicação de caráter público seja imediatamente remetida à esfera privada.”
      Não, é o contrário. Uma reivindicação de caráter privado (crença/descrença, o que você come, etc) é levada ao âmbito público quando você exige que o Estado seja ateu (sem crença) ou agnóstico, tal e qual um católico estaria fazendo se exigisse que o Estado fosse confessional e católico.

      “– “É inegável o efeito que a religião exerceu sobre a organização dos povos ao longo da história, inclusive fazendo o papel de Estado antes da ascensão do Estado-nação na Europa [devemos dar os parabéns à Igreja pela Idade Média!]. A religião cristã moldou o pensamento ocidental, e por isso é impossível a dissociar totalmente da vida dos cidadãos, mesmo daqueles não cristãos”.”
      Sim, devemos dar os parabéns à Igreja pela Idade Média. Foi na Idade Média que foram traduzidos e editados os textos da Antiguidade… foi na Idade Média que se criou o modelo universitário ocidental… foi na Idade Média que se criou o hospital público, o sistema bancário, etc. Se você ainda tem uma visão caricaturizada da Idade Média (suponho que por carências educacionais no Ensino Público Fundamental e Médio), eu recomendo que leia mais sobre o período.

      “Não ocorre a este indivíduo que aquilo que no pensamento ocidental foi moldado pela religião é uma das coisas que está justamente em questão e que trata-se de superar.”
      O que exatamente se está tentando superar?

      “– Os egos racionalistas dessa parcela da população esquecem que descobertas científicas, apesar de paradigma orientador da razão ocidental, são descartáveis: uma descoberta só existe para ser superada.
      Ok, vamos descartar a lei da gravidade e sair flutuando pelo ar. Será uma medida útil e importante para resolver os problemas de trânsito nas capitais…”
      Ad lapidem. Ignorou o ponto central do argumento: a ciência não deve ser politizada.

      “De fato, a ciência é uma atividade humana. E, de fato, o ateísmo é um humanismo.”
      Nem todo ateísmo é humanista, e nem todo humanista é ateu. Petrarca, Thomas Morus, Erasmo de Roterdã e os papas Pio II, Sisto IV e Leão X te mandaram um abraço. Mas é claro, se você estiver falando do neonato humanismo secular que é uma mescla de racionalismo, naturalismo metafísico e justiça distributiva, pode ficar todinho com ele.

      “Não esquecemos de nada do que ele afirma que esquecemos. Colocar a ciência acima da religião é apenas colocar a dúvida e a humildade acima do dogma e da arrogância.”
      Onde fica a humildade de um lado que se afirma superior ao outro ao mesmo tempo que o chama de arrogante? Aliás, você sabe o que é um dogma?

      “É colocar uma atividade contínua de conhecimento acima da passividade cristalizada em torno de mitos que cabe aos fiéis apenas engolir.”
      Coisas cristalizadas, passivas e imutáveis tipo princípios morais? Você está esquecendo que a ciência é um meio, não é um princípio ou um fim. Ela, por si só, não estabelece padrões de convivência.

      “E seguimos em frente, rumo à emancipação do homem, não apenas das amarras da irracionalidade religiosa, mas também da irracionalidade política e econômica, que nos alienam e, consequentemente, alienam a ciência.”
      Cadê o medidor disso tudo aí?

      “Quando um indivíduo não utiliza da racionalidade, não esperamos um comportamento moral. Entretanto, tal é o comportamento religioso: irracional e imoral.”
      Behaviorismo? Condicionamento? Vejamos: como você provaria que um comportamento é imoral?

      “Todos os valores morais que fortalecem a coesão social são anteriores à religião, e ela não poderia se disseminar sem agregá-los de alguma forma, ainda que muito contraditoriamente. Não é por outro motivo que nosso articulista conservador defende uma moral que “não utiliza da racionalidade durante todo o tempo”.”
      Mas é óbvio, porque a sociabilidade é um componente natural do homem. O homem é capaz de se portar de modo “bom” mesmo sem saber que o faz. Isso aí até os escolásticos espanhóis da Escola de Salamanca já estudavam, e usaram como argumento para defender as populações nativas da América. E isso no fodendo século XVI.

      “Ou será que esta moral é o que fará o papel de policial (ou enfermeiro) da ética, quando o “ser humano” não utilizar, em algum momento, da racionalidade? Provavelmente ele deve estar se referindo ao comportamento dos que negam a existência de deus…”
      O homem não pode ‘não usar’ a racionalidade. Ou ele a tem em seu estado normal ou a tem comprometida por lesão neural.

      “Eu não tenho nenhum problema com isso. Sou mesmo anti-religioso. Quanto aos meus dogmas contra a religião e meu desejo de que todos fossem ateus, são dogmas e desejos baseados em fartas evidências empíricas, que posso apresentar a hora que este defensor do catolicismo sem-vergonha quiser, coisa que infelizmente não posso esperar que ele também faça quanto aos seus próprios dogmas e desejos.”
      Evidências empíricas dizem respeito a experiência, inclusive sensorial, que servem para justificar uma crença. Pode colocar seu dogma à prova começando pelas cinco vias de Tomás de Aquino.

    2. Na verdade tudo o que está no texto possui base teórica ou na realidade. Não tão longe no tempo foram proibidos símbolos religiosos publicamente (por privados, indivíduos). Isso em nome do laicismo, na França, a uns 2 anos no máximo. Proibidos todos os símbolos religiosos, seja o Hijab pelas muçulmanas, a cruz pelos cristãos, o kipá pelos judeus.

      O laicismo foi sim advogado por religiosos, quando ainda se restringia ao seu significado original: separar o Estado e a Igreja como instituições. O Estado adotar símbolos religiosos, nesse contexto, nada importa enquanto o Estado não interferir nos assuntos da Igreja e a última não interferir nos assuntos do Estado. Isso é laicismo, pura e simplesmente.

      A religião é um dos fatores formadores da cultura ocidental, e não só nossas leis, mas toda a nossa visão de mundo foi fortemente influenciada pela mesma. E aqui não importa o quanto a pessoa acredite ou não em Deus, seja ou não católica (eu mesmo não sou, nem mesmo cristão), já que é criada e se desenvolve em um ambiente que se construiu historicamente sobre essa visão de mundo. É isso que querem superar? Tudo bem, mas com certeza irão encontrar resistência, principalmente pelo fato de que são vocês quem pretendem derrubar um dos pilares de nossa civilização.

      Outro fato é que não há um real motivo pela superação dessa visão de mundo, que se diz irracional mas é, em verdade, uma das bases de nossa maneira de pensar e inclusive de nos utilizarmos de nossa razão. O único motivo alegado é uma suposta irracionalidade do discurso religioso, que este seria alienador, o que não procede.

      É de uma grande falta de conhecimento condenar a Igreja pelo que ocorreu na Idade Média (e quem sabe ainda completar com o famoso chavão “Idade das Trevas”). Existem diversos fatores que são (ingenuamente?) omitidos quando se ensina a Idade Média nas escolas. O primeiro fato é o de que por mais que fossem cruéis as penas da Inquisição, elas consistiram em um avanço. A comparação entre as penas antes da Igreja e depois, e entre os métodos de julgamento deixam isso claro. A Igreja soterra a noção vigente de justiça como vingança privada e adota um formalismo que busca a proteção da verdade em algum litígio. Outro fato que começa a ser estudado é o de que muitas pessoas se declaravam hereges para fugir das punições seculares, já que essas eram de maior crueldade. Não digo que foram perfeitos nesse sentido: após proibirem os ordálios, anos depois voltaram eles mesmos a utilizar. O que busco aqui não é uma defesa incondicional da Igreja ou de instituições religiosas, já que as mesmas não são perfeitas.

      Mais uma demonstração de sua falta de conhecimento é associar a moralidade exclusivamente à razão. Essa noção não sobreviveu intacta nem mesmo aos próprios liberais que a fortaleceram. Durante a criação de um paradigma racionalista (principalmente liberal), em que a própria moral seria fruto exclusivo da razão, Hume, também liberal já criticava a noção de moral racional, já que paixões e vícios não poderiam ser classificados como verdadeiros ou falsos, mas sim como reprováveis ou não reprováveis. Por isso busca esse juízo de reprovabilidade justamente nas… convenções e na tradição (ateu que era, não o buscaria na religião; o fato, então, é que muitas dessas convenções e tradições se formavam e se construíam com noções religiosas). O que a ciência por muitas vezes faz é, ao invés de tentar se estabelecer como guia de nosso conhecimento, aumentar seu escopo e servir também como guia de nossas relações sociais. E aqui, friso novamente: estas não são frutos de uma razão pura, mas sim construídas historicamente; não são planejadas, mas socialmente construídas espontaneamente ao longo das décadas. Quando busca realizar essa substituição, atenta muitas vezes contra princípios morais básicos civilizacionais (mínima moral) em nome de, sim, um ego científico. Ao invés de se ater à busca pela verdade que nos é permitida conhecer, advoga em favor de causas e se torna politizada, ao invés de imparcial.

      Mais interessante, no fim das contas, foi notar que, de acordo com sua iluminada interpretação, “o autor” (eu) buscaria retroceder para um passado glorioso que só existiria em “sua” imaginação. Engraçado, mas não encontrei nada disso no texto. Nada além da afirmação de que a religiosidade, principalmente em sua forma cristã, foi formadora do pensamento ocidental e o influencia até hoje, independentemente dos esforços que se façam para desbancar esse pensamento.

      Imagino que as evidências empíricas sejam daqueles gráficos e cruzamentos de dados em que não existe relação causal verdadeira, como supostas relações entre riqueza/prosperidade e número de ateus, e coisas do gênero.

  2. Nunca vi tanta GROSELHA em um post só.
    Falta de compromisso com a verdade, desonestidade intelectual, manipulação dos significados, apelo emocional, falta de conhecimento histórico!

    Começa com o básico:
    Entenda o que é ATEÍSMO…
    Depois o que é LAICIDADE…

    Passo 02:

    Compreenda que até mesmo religiosos lutam por um estado LAICO, que é totalmente diferente de um estado ATEU!

    Passo 03:

    Sua liberdade de ter uma religião é justamente o princípio de LAICIDADE, fazendo com que vc não seja OBRIGADO a se sujeitar a IMPOSIÇÕES do estado que por ventura ADOTOU uma religião

    Passar bem!

    1. 1. Desonesto intelectual é um típico sujeito que confunde ateísmo com disteísmo, misoteísmo e antirreligião. O típico que coloca o nick ‘AntiFé’ no seu usuário. Ateísmo não é antirreligião, antiteísmo ou ‘antifé’. Pode espernear o quanto quiser, você não vai mudar o significado da palavra só porque não gosta do verdadeiro.

      3. Ver a etimologia da palavra laico, novamente, para constatar que não tem coisíssima alguma a ver com a natureza gnóstica ou agnóstica do Estado ou com a expulsão da Religião do âmbito público.

      4. Minha liberdade de ter uma religião não tem coisa alguma que ver com a laicidade. Um Estado Laico pode reprimir a liberdade religiosa, e um Estado Confessional pode ser tolerante. Não há relação entre uma coisa e outra.

  3. Quanto as frescuras e idiotices de alguns membros ATEA concordo totalmente.

    Mas então quer dizer que se eu colocar uma foto de “satan” na mesa de um escritório publico será plenamente aceito, afinal “esta é a minha religião e o estado é laico”.

    E porque não existem tantos símbolos de outras religiões? A religião é excludente,é excludente até mesmo com outras religiões, por isso não deveria estar representada no estado, esses dias saiu uma noticia de prédios públicos sendo usados para realizar cultos evangélicos e que isto seria normal pois não fere o estado laico, pergunto, seria plenamente aceito fazer uma celebração do “daime” ou um “terrero de macumba”??

    Nosso pais é cristão, e você me dirá “bem mas a maioria é cristã, logo é normal ter símbolos cristãos nas repartições públicas”.O problema que isto “exclui” as outras religiões(ao menos fica a “sensação”).

    O argumento sobre lembrança histórica, é uma bobagem, o símbolo não foi posto por questão histórica e sim por algum católico ou por influência da instituição, da mesma forma que não tem influência nenhuma a sua presença, a falta dos mesmos não deveria ser problema.

    A mesma coisa é o estudo religioso nas escolas públicas, que por muito tempo era apenas cristão(católico), depois com o tempo foi se tornando mais algo como “estudo das religiões”. Mas eu ainda estudei na época que predominava estudo dos símbolos cristãos.

    Pessoalmente não dou a mínima se tem cruzes nas repartições públicas nem com deus nas notas de dinheiro, mas se eu pedisse para colocar “Louvada seja Xiva” nas notas dinheiro, iriam gritar, ahhh se iriam…hahaha

    Abraço à todos

    1. Opa, tudo bem?

      Quanto à primeira pergunta, não, não haveria problema haha a atitude até poderia ser questionada pela sociedade no campo moral, poderia até causar indignação. Mas creio que não feriria a laicidade do Estado.

      O argumento principal é quanto ao conceito do Estado Laico: a separação entre a Igreja e o Estado como instituições, que anteriormente praticamente se confundiam. A mera influência da religião não fere a laicidade justamente por ser praticamente impossível distinguir quais influências se dão por motivo religioso das que existem simplesmente por estarem enraizadas no imaginário popular independentemente da religiosidade. A história do Ocidente praticamente se confunde com a história da Igreja Católica, e o início da ausência da religião na sociedade é algo recente.

      Eu iria até mais além: é impossível realizar essa distinção de forma radical porque o legislador possui crenças pessoais. Não há como esperar que um governante tome suas decisões ou crie as leis realizando uma separação total entre sua concepção de moralidade e o campo público que deveria ser, teoricamente, neutro. A leitura da realidade desse sujeito imperativamente passa por esse filtro, tornando essa separação, como querem certas pessoas, impossível.

      Chegamos ao absurdo de pessoas dizerem que a existência de uma bancada evangélica feriria o Estado Laico. Aí vemos como o conceito de laicismo tem se distorcido. Esse é mais um dos objetivos do post, mostrar como a luta pelo Estado Laico mais tem se assemelhado a uma luta pelo ateísmo institucional. Proibir parlamentares de se candidatarem por militância religiosa seria o que? Ou apenas religiosos não podem ser representados no Estado e o laicismo está bem com isso?

      Já a questão histórica, a meu ver, pesa. Nesse sentido, é aquele símbolo que sempre esteve lá e não há porque tirar. Absurdo seria se o poder fosse dividido nas esferas secular e divina, se a promiscuidade fosse julgada por tribunais católicos de acordo com o direito canônico ou, ficando com a atualidade, tivéssemos instaurada a Sharia ou um sistema imperativo de castas motivado pela reencarnação.

      Abraços!

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