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POR RODRIGO VIANA

Recentemente publiquei um artigo antigo de Friedrich Hayek intitulado “Por que não sou conservador” (http://direitasja.wordpress.com/2012/09/09/por-que-nao-sou-conservador). Sabendo do rebuliço que poderia dar, preferi introduzir um pequeno texto antes do artigo, explicando de forma bem simples o que Hayek estava querendo dizer. Mesmo assim não foi o suficiente. Talvez por eu não ter explicado melhor a natureza do “conservadorismo” que ele se referia.
A verdade é que esse desentendimento é muito comum, não fica apenas no Brasil e isso pode ser visto facilmente no Google. O que precisa ser esclarecido é que existe duas visões de conservadorismo: a ideologia política e a de conduta moral pessoal e social.

A ideologia política conservadora é herdeira da Antiga Ordem que havia nos tempos do Absolutismo. Com a queda das tiranias monárquicas, limitando seus poderes para uma monarquia constitucional, gerou-se a Nova Ordem existente até hoje. Mesmo respeitando a democracia e os limites impostos aos governantes, países que não tiveram essa tradição política rompida mantiveram certas estruturas de seus tempos antigos. Políticas como intervencionismo, estatismo, corporativismo, limitação das liberdades, imposição de conduta moral, nacionalismo e reacionarismo ainda permanecem nesses locais.

O pensamento conservador de conduta moral não é uma ideologia. É um conjunto de princípios que busca harmonizar o homem à sua sociedade e vice-versa, indo além de posições políticas. Ele não tem normas específicas que o caracterize e nem um livro próprio como guia a ser seguido.
É necessário dizer que esse pensamento nasceu para uma sociedade livre e de virtudes, onde não rejeita mudanças porém sem esquecer das contribuições dadas pelos antepassados. E tal cenário ocorre de forma mais fluida dentro do liberalismo político. Aliás, ele nasceu no liberalismo.
Tal pensamento defende reformas sociais liberais baseadas em usos e costumes estabelecidos, por exemplo. Com ações pragmáticas, a basear mudanças visando a sociedade como é e sem o apelo do uso puramente da razão, uma das características do liberalismo conservador. Esse conservadorismo age como um elo de garantia para que tenhamos um futuro livre de tiranias, revoluções ou qualquer desgraças que possa destruir uma civilização.

Claro que há muito mais coisas do que simplesmente “tradição” nesse pensamento, como a visão de sociedade, a questão de ordem e liberdade e outros. Só que isso é assunto para um outro artigo.

F. Hayek

F. Hayek: um “Old Whig”, como costumava se dizer

Com as diferenças culturais entre um país e outro, é importante mencionar que certas definições ao se traduzir pode ocorrer certos transtornos. Por isso se faz mais que necessário um conhecimento prévio sobre o assunto a ser tratado. Do mesmo jeito que nos EUA os liberals são tratados como “progressistas” ou “esquerdistas” e não como liberais clássicos mais radicais (daí o advento do termo libertarian para diferenciá-los), o termo “conservador” ocorre o mesmo fora do país. Para um indivíduo de um país de cultura anglo-saxônica (especialmente se for americano), um conservador legítimo é um liberal clássico de viés moral tradicionalista. Para um europeu continental é visto como um coletivista intervencionista (às vezes estatista). E um conservador europeu continental não enxerga um americano conservador como um dos seus, mas como um liberal.

Hayek, de maneira alguma, está criticando o pensamento conservador anglo-saxônico, liberal político e de conduta moral tradicional. E nem poderia já que ele é um tradicionalista e comunga do mesmo. Essa vertente do liberalismo (do qual possui muitas outras vertentes, diga-se de passagem) existe desde os primeiros liberais que compunham o antigo partido Whig inglês, do qual eram reconhecidos por suas políticas moderadas. Concluindo, Hayek não falava desta corrente do liberalismo. Na verdade ele foi herdeiro e defensor dessa corrente liberal. E um dos maiores.

PS: Para aguçar a curiosidade do leitor, está sendo preparado a publicação de um artigo envolvendo a relação de F. Hayek com o tradicionalismo (ou conservadorismo moderno para alguns) de caráter liberal de E. Burke e mais excelentes materiais de apoio para pesquisas. Com informações esmiuçadas da visão hayekiana sobre valores morais, tradição, instituições políticas, sociedade e muito mais. Aguarde.

Veja também:

Para conhecer melhor o pensamento político conservador, além do já postado “Porque eu não sou conservador” de F. Hayek, leia o capítulo “O socialismo do conservadorismo” do livro Uma Teoria Sobre o Socialismo e Capitalismo, de Hans H. Hoppe. Disponível no Instituto Mises Brasil em http://www.mises.org.br/files/literature/Uma%20Teoria%20sobre%20Socialismo%20e%20Capitalismo%20-%20WEB.pdf

Para conhecer melhor o pensamento tradicionalista conservador, veja Os 10 princípios conservadores, de Russell Kirk. Disponível no Tiradentes Vive em http://trilhatiradentesvive.blogspot.com.br/2012_04_01_archive.html

Sobre o pensamento tradicionalista conservador, leia também  O conservadorismo não é uma ideologia, de Bradley Birzer. Disponível no CIEEP em http://www.cieep.org.br/?page=2&content=7&id=82

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